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sexta-feira, 18 de maio de 2012
Crenças e Negações
Entre os povos de iniciativa,
nenhum há cuja missão se manifeste com maior brilho do que o da Hélade. A
Grécia iniciou a Europa em todos os esplendores do belo. De sua mão aberta saiu
a civilização ocidental e o seu gênio de vinte séculos atrás ainda hoje se
irradia sobre as nações. Por isso é que, apesar de seus desmembramentos, de
suas lutas intestinas, de sua queda final, ela tem sido admirada em todas as
épocas.
quinta-feira, 17 de maio de 2012
Crenças e Negações
O Egito
Às portas do deserto erguem-se
os templos, os pilonos e as pirâmides, florestas de pedra debaixo de um céu de
fogo. As esfinges, retraídas e sonhadoras, contemplam a planície, e as necrópoles,
talhadas na rocha, abrem seus sólios profundos à margem do rio silencioso. É o
Egito, terra estranha, livro venerável, no qual o homem moderno apenas começa a
soletrar o mistério das idades, dos povos e das religiões.[i]A Índia, diz a maior parte dos
orientalistas, comunicou ao Egito a sua civilização e a sua fé; outros, não
menos eruditos, afirmam que, em época remota, já a terra de Ísis possuía suas
próprias tradições.[ii] Estas são a herança de uma raça extinta, a vermelha, que
ocupava todo o continente austral, e que foi aniquilada por lutas formidáveis contra
os brancos e por cataclismos geológicos. A Esfinge de Gizé, anterior em vários
milhares de anos à grande pirâmide,[iii] e levantada pelos vermelhos no ponto em que o Nilo se
juntava então ao mar,[iv] é um dos raros monumentos que esses tempos remotos nos legaram.
A leitura das estrelas,[v] a dos papiros encontrados nos túmulos, permite reconstituir
a história do Egito, ao mesmo tempo em que essa antiga doutrina do Verbo-Luz,
divindade de tríplice natureza, simultaneamente inteligência, força e matéria:
espírito, alma e corpo, que oferece uma analogia perfeita com a filosofia da
Índia. Aqui, como lá, encontra-se, debaixo da grosseira forma cultual, o mesmo
pensamento oculto. A alma do Egito, o segredo da sua vitalidade, o do seu papel
histórico, é a doutrina oculta dos seus sacerdotes, cuidadosamente velada sob
os mistérios de Ísis e Osíris, e experimentalmente analisada, no fundo dos
templos, por iniciados de todas as classes e de todos os países.
Sob formas austeras, os
princípios dessa doutrina eram expressos pelos livros sagrados de Hermes, que
constituíam uma vasta enciclopédia. Ali se encontravam classificados os
conhecimentos humanos, mas nem todos os livros chegaram até nós. A ciência
religiosa do Egito foi-nos restituída sobretudo pela leitura dos hieróglifos.
Os templos são igualmente livros, e pode-se dizer que na terra dos faraós as
pedras têm voz.
Um dos grandes sábios
modernos, Champollion, descobriu três espécies de escrita nos manuscritos e
sobre os templos egípcios.[vi] Por aí ficou confirmada a opinião dos antigos, isto é, que
os sacerdotes empregavam três classes de caracteres: os primeiros, demóticos, eram simples e claros; os
segundos, hieráticos, tinham um
sentido simbólico e figurado; os outros eram hieróglifos. É o que Heráclito
exprimia pelos termos de falante,
significante e ocultante.
Os hieróglifos tinham um
triplo sentido e não podiam ser decifrados sem chave. A esses sinais
aplicava-se a lei da analogia que rege os mundos: natural, humano e divino, e
que permite exprimir os três aspectos de todas as coisas por combinações de
números e figuras, que reproduzem a simetria harmoniosa e a unidade do
Universo. É assim que, num mesmo sinal, o adepto lia, ao mesmo tempo, os
princípios, as causas e os efeitos, e essa linguagem tinha para ele extraordinário
valor. Saído de todas as classes da sociedade, mesmo das mais ínfimas, o
sacerdote era o verdadeiro senhor do Egito; os reis, por ele escolhidos e
iniciados, só governavam a nação a titulo de mandatários. Altas concepções, uma
profunda sabedoria, presidiam aos destinos desse país. No meio do mundo
bárbaro, entre a Assíria feroz, apaixonada, e a África selvagem, a terra dos
faraós era como uma ilha açoitada pelas ondas em que se conservavam as puras
doutrinas, a ciência secreta do mundo antigo.
Os sábios, os pensadores, os
diretores de povos, gregos, hebreus, fenícios, etruscos, iam beber nessa fonte.
Por intermédio deles, o pensamento religioso derramava-se dos santuários de
Ísis sobre todas as praias do Mediterrâneo, fazendo despontar civilizações diversas,
dessemelhantes mesmo, conforme o caráter dos povos que as recebiam, tornando-se
monoteísta, na Judéia, com Moisés, politeísta, na Grécia, com Orfeu, porém
uniforme em seu princípio oculto, em sua essência misteriosa.
O culto popular de Ísis e de Osíris
não era senão uma brilhante miragem oferecida à multidão. Debaixo da pompa dos
espetáculos e das cerimônias públicas ocultava-se o verdadeiro ensino dos
pequenos e grandes mistérios. A iniciação era cercada de numerosos obstáculos e
de reais perigos. As provas físicas e morais eram longas e múltiplas. Exigia-se
o juramento de sigilo, e a menor indiscrição era punida com a morte. Essa
temível disciplina dava forma e autoridade incomparáveis à religião secreta e à
iniciação. À medida que o adepto avançava em seu curso, descortinavam-se-lhe os
véus, fazia-se mais brilhante a luz, tornavam-se vivos e animados os símbolos.
A Esfinge, cabeça de mulher em
corpo de touro, com garras de leão e asas de águia, era a imagem do ser humano
emergindo das profundezas da animalidade para atingir a sua nova condição. O
grande enigma era o homem, trazendo em si os traços sensíveis da sua origem,
resumindo todos os elementos e todas as forças da natureza inferior.
Deuses extravagantes com
cabeça de pássaros, de mamíferos, de serpentes, eram outros símbolos da vida,
em suas múltiplas manifestações. Osíris, o deus solar, e Ísis, a grande
Natureza, eram celebrados por toda parte; mas, acima deles, havia um Deus inominado,
de que só se falava em voz baixa e com timidez.
Antes de tudo, o neófito
aprendia a conhecer-se. O hierofante falava-lhe assim:
“Oh! alma cega, arma-te com o
facho dos mistérios e, na noite terrestre, descobrirás teu dúplice luminoso,
tua alma celeste. Segue esse gênio divino e que ele seja teu guia, porque tem a
chave das tuas existências passadas e futuras.”
No fim de suas provas,
fatigado pelas emoções, tendo dez vezes encarado a morte, o iniciado via
aproximar-se dele uma imagem de mulher, trazendo um rolo de papiros.
“Sou tua irmã invisível, dizia
ela, sou tua alma divina, e isto é o livro da tua vida. Ele encerra as páginas
cheias das tuas existências passadas e as páginas brancas das tuas vidas
futuras. Um dia as desenrolarei todas diante de ti. Agora me conheces. Chama-me
e eu virei.”
Enfim, na varanda do templo,
debaixo do céu estrelado, diante de Mênfis ou Tebas adormecidas, o sacerdote
contava ao adepto a visão de Hermes, transmitida vocalmente de pontífice a
pontífice e gravada em sinais hieroglíficos nas abóbadas das criptas subterrâneas.
Um dia, Hermes viu o espaço,
os mundos e a vida, que em todos os lugares se expandia. A voz da luz que
enchia o infinito revelou-lhe o divino mistério:
“A luz que viste é a
Inteligência Divina que contêm todas as coisas sob seu poder e encerra os
moldes de todos os seres.
“As trevas são o mundo
material em que vivem os homens da Terra.
“O fogo que brota das
profundezas é o Verbo Divino:
Deus é o Pai, o Verbo é o
Filho, sua união faz a Vida.
“O destino do Espírito humano
tem duas fases: cativeiro na matéria, ascensão na luz. As almas são filhas do
céu, e a viagem que fazem é uma prova. Na encarnação perdem a reminiscência de
sua origem celeste. Cativas pela matéria, embriagadas pela vida, elas se
precipitam como uma chuva de fogo com estremecimentos de volúpia, através da
região do sofrimento, do amor e da morte, até à prisão terrestre em que tu
mesmo gemes, e em que a vida divina parece-te um sonho vão.
“As almas inferiores e más
ficam presas à Terra por múltiplos renascimentos, porém as almas virtuosas
sobem voando para as esferas superiores, onde recobram a vista das coisas
divinas. Impregnam-se com a lucidez da consciência esclarecida pela dor, com a
energia da vontade adquirida pela luta. Tornam-se luminosas, porque possuem o
divino em si próprias e irradiam-no em seus atos. Reanima pois teu coração, ó
Hermes, e tranqüiliza teu espírito obscurecido pela contemplação desses vôos de
almas subindo a escala das esferas que conduz ao Pai, onde tudo se acaba, onde
tudo começa eternamente. E as sete esferas disseram juntas: Sabedoria! Amor!
Justiça! Beleza! Esplendor! Ciência! Imortalidade!”.[vii]O pontífice acrescentava:
“Medita sobre esta visão. Ela
encerra o segredo de todas as coisas. Quanto mais souberes compreendê-la, tanto
mais verás se alargarem os seus limites, porque governa a mesma lei orgânica os
mundos todos. Entretanto, o véu do mistério cobre a grande verdade, pois o
conhecimento total desta só pode ser revelado àqueles que atravessarem as
mesmas provas que nós. É preciso medir a verdade segundo as inteligências, velá-la
aos fracos porque os tornaria loucos, ocultá-la aos maus que dela fariam arma
de destruição. A ciência será tua força, a fé tua espada, o silêncio teu escudo.”
A ciência dos sacerdotes do
Egito ultrapassava em bastantes pontos a ciência atual. Conheciam o Magnetismo,
o Sonambulismo, curavam pelo sono provocado e praticavam largamente a sugestão.
É o que eles chamavam “Magia”.[viii]O alvo mais elevado a que um
iniciado podia aspirar era a conquista desses poderes, cujo emblema era a coroa
dos magos.
“Sabei, diziam-lhe, o que
significa esta coroa. Tua vontade, que se une a Deus para manifestar a verdade
e operar a justiça, participa, já nesta vida, da potência divina sobre os seres
e sobre as coisas, recompensa eterna dos espíritos livres”.
O gênio do Egito foi prostrado
pela onda das invasões. A escola de Alexandria colheu algumas das suas
parcelas, que transmitiu ao Cristianismo nascente. Antes disto, porém, os
iniciados gregos tinham feito penetrar as doutrinas herméticas na Hélade. É aí
que vamos encontrá-las.
[i] Ver as obras de François Lenormant e
Maspéro.[ii] Maneton atribui aos templos egípcios uma
tradição de trinta mil anos.[iii] Um manuscrito da quarta dinastia (4000 anos a.C.)
relata que a Esfinge, enterrada nas areias e olvidada desde séculos, foi
encontrada fortuitamente nessa época. (Histoire
d’Orient, por Lenormant.)[iv] O delta atual foi formado pelas aluviões
sucessivas depositadas pelo Nilo.[v] Colunas
herméticas.
[vi] L’Egypte sous le Pharaons, por Champollion.
[vii] Ver Pimander.
o mais autêntico dos livros de Hermes Trimegisto.[viii] Diodoro da Sicilia e Estrabão referem que os
sacerdotes do antigo Egito sabiam provocar a clarividência com um fim
terapêutico. Galien menciona um templo perto de Mênfis, célebre por curas
hipnóticas.
LEON DENIS
Crenças e Negações -A Índia
Crenças e Negações
A Índia
Dissemos que a doutrina
secreta achava-se no fundo de todas as religiões e nos livros sagrados de todos
os povos. De onde veio ela? Qual a sua origem? Quais os homens que a conceberam
e fizeram depois a sua descrição? As mais antigas escrituras são as que
resplandecem nos céus.[i]Esses mundos estelares que,
através das noites calmas, deixam cair serenas claridades, constituem as
escrituras eternas e divinas de que fala Dupuis. Os homens têm-nas, sem dúvida,
consultado antes de escrever; mas os primeiros livros em que se encontra
exposta a grande doutrina são os Vedas. É o molde em que se formou a religião
primitiva da Índia, religião inteiramente patriarcal, simples e pura, como uma
existência desprovida de paixões, passando vida tranqüila e forte ao contacto
da natureza esplêndida do Oriente.[ii]Os hinos védicos igualam em
grandeza e elevação moral a tudo o que, no decorrer dos tempos, o sentimento
poético engendrou de mais belo. Celebram Agni, o fogo, símbolo do Eterno Masculino
ou Espírito Criador; Sorna, o licor do sacrifício, símbolo do Eterno Feminino,
Alma do Mundo, substância etérea. Em sua união perfeita, esses dois princípios
essenciais do Universo constituem o Ser Supremo, Zians ou Deus.O Ser Supremo imola-se a si
próprio e divide-se para produzir a vida universal. Assim, o mundo e os seres
saídos de Deus voltam a Deus por uma evolução constante. Daí a teoria da queda
e da reascensão das almas que se encontra no Oriente. Ao sacrifício do fogo
resume-se todo o culto védico. Ao levantar do dia, o chefe de família, pai e
sacerdote ao mesmo tempo, acendia a chama sagrada no altar da Terra e, assim,
para o céu azul, subia alegre a prece, a invocação de todos à Força única e
viva, que está coberta pelo véu transparente da Natureza.Enquanto se cumpre o
sacrifício, dizem os Vedas, os Assuras ou Espíritos superiores e os Pitris ou
almas dos antepassados cercam os assistentes e se associam às suas preces.
Portanto, a crença nos Espíritos remonta às primeiras idades do mundo.Os Vedas afirmam a
imortalidade da alma e a reencarnação:“Há uma parte imortal do homem
que é aquela, o Agni, que cumpre aquecer com teus raios, inflamar com teus
fogos. – De onde nasceu a alma? Umas vêm para nós e daqui partem, outras partem
e tornam a voltar.”Os Vedas são monoteístas; as
alegorias que se encontram em cada página apenas dissimulam a imagem da grande
Causa primária, cujo nome, cercado de santo respeito, não podia, sob pena de
morte, ser pronunciado. As divindades secundárias ou devas personificam os auxiliares inferiores do Ser Supremo, as
forças vivas da Natureza e as qualidades morais.Do ensino dos Vedas decorria
toda a organização da sociedade primitiva, o respeito à mulher, o culto dos
antepassados, o poder eletivo e patriarcal. Os homens viviam felizes, livres e
em paz.Durante a época védica, na
vasta solidão dos bosques, nas margens dos rios e lagos, anacoretas ou rishis passavam os dias no retiro.
Intérpretes da ciência oculta, da doutrina secreta dos Vedas, eles possuíam já
esses misteriosos poderes, transmitidos de século em século, de que gozam ainda
os faquires e os jogues. Dessa confraria de solitários
saiu o pensamento inovador, o primeiro impulso que fez do Bramanismo a mais
colossal das teocracias.Krishna, educado pelos ascetas
no seio das florestas de cedros que coroam os píncaros nevoentos do Himalaia,
foi o inspirador das crenças dos hindus. Essa grande figura aparece na História
como o primeiro dos reformadores religiosos, dos missionários divinos. Renovou
as doutrinas védicas, apoiando-se sobre as idéias da Trindade, da imortalidade
da alma e de seus renascimentos sucessivos. Selada a obra com o seu próprio
sangue, deixou a Terra, legando à Índia essa concepção do Universo e da Vida,
esse ideal superior em que ela tem vivido durante milhares de anos.Sob nomes diversos, pelo mundo
espalhou-se essa doutrina com todas as migrações de homens, de que foi origem a
região da Índia. Essa terra sagrada não é somente a mãe dos povos e das
civilizações, é também o foco das maiores inspirações religiosas.Krishna, rodeado por um certo
número de discípulos, ia de cidade em cidade espalhar os seus ensinos:“O corpo – dizia ele [iii] –, envoltório da alma, que aí faz sua morada, é uma coisa
finita; porém, a alma que o habita é invisível, imponderável e eterna.
“O destino da alma depois da
morte constitui o mistério dos renascimentos. Assim como as profundezas do céu
se abrem aos raios dos astros, assim também os recônditos da vida se esclarecem
à luz desta verdade.“Quando o corpo entra em
dissolução, se a pureza é que o domina, a alma voa para as regiões desses seres
puros que têm o conhecimento do Altíssimo. Mas, se é dominado pela paixão, a alma
vem de novo habitar entre aqueles que estão presos às coisas da Terra. Assim, a
alma, obscurecida pela matéria e pela ignorância, é novamente atraída para o
corpo de seres irracionais.“Todo renascimento, feliz ou
desgraçado, é conseqüência das obras praticadas nas vidas anteriores.“Há, porém, um mistério maior
ainda. Para atingir a perfeição, cumpre conquistar a ciência da Unidade, que
está acima de todos os conhecimentos; é preciso elevar-se ao Ser divino, que
está acima da alma e da inteligência. Esse Ser divino está também em cada um de
nós:“Trazes
em ti próprio um amigo sublime que não conheces, pois Deus reside no interior
de todo homem, porém poucos sabem achá-lo. Aquele que faz o sacrifício de
seus desejos e de suas obras ao Ser de que procedem os princípios de todas as
coisas, obtém por tal sacrifício a perfeição, porque, quem acha em si mesmo sua
felicidade, sua alegria, e também sua luz, é um com Deus. Ora, fica sabendo, a
alma que encontrou Deus está livre do renascimento e da morte, da velhice e da
dor, e bebe a água da imortalidade.”
Krishna falava na sua missão e
da sua própria natureza em termos sobre os quais convém meditar. Dirigindo-se
aos seus discípulos, dizia:“Tanto eu como vós temos tido
vários nascimentos. Os meus só de mim são conhecidos, porém vós nem mesmo os
vossos conheceis. Posto que, por minha natureza, eu não esteja sujeito a nascer
e a morrer, todas as vezes que no mundo declina a virtude, e que o vício e a
injustiça a superam, torno-me então visível; assim me mostro, de idade em
idade, para salvação do justo, para castigo do mau, e para restabelecimento da
verdade.“Revelei-vos os grandes
segredos. Não os digais senão àqueles que os podem compreender. Sois os meus
eleitos: vedes o alvo, a
multidão só descortina uma ponta do caminho.” [iv]Por essas palavras a doutrina
secreta estava fundada. Apesar das alterações sucessivas que teve de suportar,
ela ficará sendo a fonte da vida em que, na sombra e no silêncio, se inspiram
todos os grandes pensadores da antiguidade.A moral de Krishna também era
muito pura:“Os males com que afligimos o
próximo perseguem-nos, assim como a sombra segue o corpo. – As obras inspiradas
pelo amor dos nossos semelhantes são as que mais pesarão na balança celeste. –
Se convives com os bons, teus exemplos serão inúteis; não receeis habitar entre
os maus para os reconduzir ao bem. – O homem virtuoso é semelhante a uma árvore
gigantesca, cuja sombra benéfica permite frescura e vida às plantas que a
cercam.”Sua linguagem elevava-se ao
sublime quando falava da abnegação e do sacrifício:“O homem de bem deve cair aos
golpes dos maus como o sândalo que, ao ser abatido, perfuma o machado que o
fere.”Quando os sofistas pediam que
explicasse a natureza de Deus, respondia-lhes:“Só o infinito e o espaço
podem compreender o infinito. Somente Deus pode compreender a Deus.”Dizia ainda:“Nada do que existe pode
perecer, porque tudo está contido em Deus. Visto isso, não é alvitre sábio
chorarem-se os vivos ou os mortos, pois nunca todos nós cessaremos de subsistir
além da vida presente.” [v]Sobre a comunicação dos
Espíritos:“Muito tempo antes de se
despojarem de seu envoltório mortal, as almas que só praticaram o bem adquirem
a faculdade de conversar com as almas que as precederam na vida espiritual.Ӄ isto o que, ainda em nossos
dias, afirmam os brâmanes pela doutrina dos Pitris, mesmo porque, em todos os
tempos, a evocação dos mortos tem sido uma das formas da sua liturgia.Tais são os principais pontos
dos ensinos de Krishna, que se encontram nos livros sagrados conservados ainda
nos santuários do sul do Indostão.A princípio, a organização
social da Índia foi calcada pelos brâmanes sobre suas concepções religiosas.
Dividiram a sociedade em três classes, segundo o sistema ternário; mas, pouco a
pouco, tal organização degenerou em privilégios sacerdotais e aristocráticos. A
hereditariedade impôs os seus limites estreitos e rígidos às aspirações de
todos. A mulher, livre e honrada nos tempos védicos, tornou-se escrava, e dos
filhos só soube fazer escravos, igualmente. A sociedade condensou-se num molde
implacável, a decadência da Índia foi a sua conseqüência inevitável.
Petrificado em suas castas e seus dogmas, esse país teve um sono letárgico,
imagem da morte, que nem mesmo foi perturbado pelo tumulto das invasões estrangeiras!
Acordará ainda? Só o futuro poderá dizê-lo.Os brâmanes, depois de terem
estabelecido a ordem e constituído a sociedade, perderam a Índia por excesso de
compressão. Assim também, despiram toda a autoridade moral da doutrina de
Krishna, envolvendo-a em formas grosseiras e materiais.Se considerarmos o Bramanismo
somente pelo lado exterior e vulgar, por suas prescrições pueris, cerimonial
pomposo, ritos complicados, tábulas e imagens de que é tão pródigo, seremos
levados a nele não ver mais que um acervo de superstições. Seria, porém, erro
julgá-lo unicamente pelas suas aparências exteriores. No Bramanismo, como em
todas as religiões antigas, cumpre distinguir duas coisas:•
Uma é o culto e o
ensino vulgar, repletos de ficções que cativam o povo, auxiliando a conduzi-lo
pelas vias da submissão. A esta ordem de idéias liga-se o dogma da metempsicose
ou renascimento das almas culpadas em corpos de animais, insetos ou plantas,
espantalho destinado a atemorizar os fracos, sistema hábil imitado pelo
Catolicismo quando concebeu os mitos de Satanás, do inferno e dos suplícios eternos;
•
A outra é o ensino
secreto, a grande tradição esotérica que fornece sobre a alma e seus destinos,
e sobre a causa universal, as mais puras e elevadas reflexões. Para conseguir
isso, é necessário penetrar-se nos mistérios dos pagodes, folhear os
manuscritos que estes encerram e interrogar os brâmanes sábios.
*Cerca de seiscentos anos antes
da era Cristã, um filho de rei, Çãkyamuni ou o Buddha, foi acometido de
profunda tristeza e imensa piedade pelos sofrimentos dos homens. A corrupção
invadira a Índia, logo depois de alteradas as tradições religiosas, e, em
seguida, vieram os abusos da teocracia ávida do poder. Renunciando às
grandezas, à vida faustosa, o Buddha deixa o seu palácio e embrenha-se na floresta silenciosa. Após longos
anos de meditação, reaparece para levar ao mundo asiático senão uma crença
nova, ao menos uma outra expressão da Lei.Segundo o Budismo,[vi] está no desejo a causa do mal, da dor, da morte e do
renascimento. É o desejo, é a paixão que nos prende às formas materiais e que
desperta em nós mil necessidades sem cessar, reverdecentes e nunca saciadas,
tornando-se assim, outros tantos tiranos. O fim elevado da vida é arrancar a
alma aos turbilhões do desejo. Consegue-se isso pela reflexão, austeridade,
pelo desprendimento de todas as coisas terrenas, pelo sacrifício do eu, pela isenção do cativeiro egoísta
da personalidade. A ignorância é o mal soberano de que decorrem o sofrimento e
a miséria; o principal meio para se melhorar a vida no presente e no futuro é
adquirir-se o conhecimento.
O conhecimento compreende a
ciência da natureza visível e invisível, o estudo do homem e dos princípios das
coisas. Estes são absolutos e eternos. O mundo, saído por sua própria atividade
de um estado uniforme, está numa evolução contínua. Os seres, descidos do
Grande-Todo a fim de operarem o problema da Perfeição, inseparável do estado de
liberdade e, por conseguinte, do movimento e do progresso, tendem sempre a
voltar ao Bem perfeito. Não penetram no mundo da forma senão para trabalharem
no complemento da sua obra de aperfeiçoamento e elevação. Podem realizar isso
pela Ciência, ou Upanishaci, e
completá-lo pelo Amor, ou Purana.A Ciência e o Amor são dois
fatores essenciais do Universo. Enquanto não adquire o amor, o ser está
condenado a prosseguir na série das reencarnações terrestres.Sob a influência de tal
doutrina, o instinto egoísta vê estreitar-se pouco a pouco o seu circulo de
ação. O ser aprende a abraçar num mesmo amor tudo o que vive e respira; e isto
nada mais é que um dos degraus da sua evolução, pois esta deve conduzi-lo a só
amar o eterno princípio de que emana todo o amor, e para onde todo ele deve
necessariamente voltar. Esse estado é o do Nirvana.Essa expressão, diversamente
comentada, tem causado muitos equívocos. Em conformidade com a doutrina secreta
do Budismo,[vii] o Nirvana não é, como ensina a Igreja do Sul e o
Grã-Sacerdote do Ceilão, a perda da individualidade e o esvaecimento do ser no
nada, mas sim a conquista, pela alma, da perfeição, e a libertação definitiva
das transmigrações e dos renascimentos no seio das humanidades. Cada qual
executa o seu próprio destino. A vida presente, com suas alegrias e dores, não
é senão a conseqüência das boas ou más ações operadas livremente pelo ser nas
existências anteriores.
O presente explica-se pelo
passado, não só para o mundo tomado em seu conjunto, como também para cada um
dos seres que o compõem. Designa-se por Carma
toda a soma de méritos ou de deméritos adquiridos pelo ser. O Carma é para este, em todos os
instantes da sua evolução, o ponto de partida do futuro, o motor de toda a
justiça distributiva:“Em
Buddha[viii] uno-me à dor de
todos os meus irmãos e, entretanto, sorrio e sinto-me contente porque vejo que
a liberdade existe. Sabei, ó vós que sofreis; mostro-vos a verdade; tudo o que
somos é resultante do que fomos no passado. Tudo é fundado sobre nossos
pensamentos; tudo é obra dos próprios pensamentos. Se as palavras e ações de um
homem obedecem a um pensamento puro, a liberdade segue-o como uma sombra. O
ódio jamais foi apaziguado pelo ódio,
pois não é vencido senão pelo amor. Assim como a chuva passa através de uma
casa mal coberta, assim a paixão atravessa um espírito pouco refletido. Pela
reflexão, moderação e domínio de si próprio, o homem transforma-se numa rocha
que nenhuma tempestade pode abater. O homem colhe aquilo que semeou. Eis a
doutrina do Carma.”
A maior parte das religiões
recomenda-nos fazer o bem em vista de uma recompensa de além-túmulo. Está aí um
móbil egoísta e mercenário que não se encontra do mesmo modo no Budismo. É
necessário praticar o bem, diz Léon de Rosny,[ix] porque o bem é o fim supremo da Natureza. É conformando-se
às exigências dessa lei que se adquire a única satisfação verdadeira, a mais bela
que pode apreciar o ser desprendido dos entraves da forma e das atrações do
desejo, causas contínuas de decepção e de sofrimento.
A compaixão do Budismo, sua
caridade, estende-se a todos os seres. Segundo ele, todos são destinados ao
Nirvana. E, por seres, devem entender-se os animais, os vegetais e mesmo os
corpos inorgânicos. Todas as formas da vida se encadeiam, de acordo com a lei
grandiosa da evolução e do transformismo. Em parte alguma do universo deixa de
existir vida. A morte não é senão uma ilusão, um dos agentes da vida que exige
um renovamento contínuo e transformações incessantes. O inferno, para os
iniciados na doutrina, não é outra coisa senão o remorso e a ausência do amor.
O purgatório está em toda parte onde se encontra a forma e onde evoluciona a
matéria. Está em nosso globo, ao mesmo tempo em que nas profundezas do
firmamento estrelado.O Buddha e seus discípulos
praticavam o Diana, ou a contemplação, o êxtase. Durante esse estado, o
Espírito destaca-se e comunica-se com as almas que deixaram a Terra.[x]O Budismo esotérico ou vulgar,
repelido de todos os lados da Índia no século 6º, após lutas sangrentas
provocadas pelos brâmanes, sofreu vicissitudes diversas e numerosas
transformações. Um dos seus ramos ou Igreja, a do Sul, em algumas das suas
interpretações, parece inclinar-se para o ateísmo e materialismo. A do Tibet
conservou-se deísta e espiritualista. O Budismo também se tornou a religião do
império mais vasto do mundo: a China. Seus fiéis adeptos compõem, hoje, a terça
parte da população do globo; mas, em todos os meios onde ele se espalhou, do
Ural ao Japão, foram veladas e alteradas as tradições primitivas. Nele, como em
qualquer outra doutrina, as formas materiais do culto abafaram as altas
aspirações do pensamento. Os ritos, as cerimônias supersticiosas, as fórmulas
vãs, as oferendas, as preces sonoras, substituíram o ensino moral e a prática
das virtudes.[xi] Entretanto, os principais ensinamentos do Buddha foram
conservados nos Sutras.[xii] Sábios, herdeiros da ciência e dos poderes dos antigos
ascetas, possuem também, dizem,[xiii] a doutrina secreta na sua integridade. Esses estabeleceram
suas moradas longe das multidões humanas, sobre os planaltos das montanhas, de
onde os campos da Índia apenas se divisam vagos e longínquos como num sonho. É
na atmosfera pura e calma das solidões que habitam os Mãhãtmas. Possuindo segredos que lhes permitem desafiar a dor e
a morte, passam os dias na meditação, esperando a hora problemática em que o
estado moral da Humanidade torne possível a divulgação dos seus poderes extraordinários.
Como, porém, nenhum fato bastante autêntico tem vindo até hoje confirmar essas
citações, ainda fica por provar a existência dos Mãhãtmas.
Há vinte anos que grandes
esforços foram empregados para espalhar a doutrina búdica no Ocidente. A raça
latina, porém, ávida de movimento, de luz e liberdade, parece pouco disposta a
assimilar-se a essa religião de renunciamento, de que os povos orientais
fizeram uma doutrina de aniquilamento voluntário e de prostração intelectual. O
Budismo, na Europa, apenas tem permanecido no domínio de alguns homens de
letras, que honram o esoterismo tibetano. Este, em certos pontos, abre ao
Espírito humano perspectivas estranhas. A teoria dos dias e das noites de
Brahma – Manvantara e Pralaya –, que é uma renovação das
antigas religiões da Índia, parece que está em muita contradição com a idéia do
Nirvana. De qualquer modo, esses períodos imensos de difusão e concentração,
durante os quais a grande causa primordial absorve todos os seres, permanece
só, imóvel, adormecida sobre os mundos dissolvidos, atraem o pensamento numa
espécie de vertigem. A teoria dos sete princípios constitutivos do homem e dos
sete planetas,[xiv] sobre os quais corre a roda da vida num movimento ascensional,
também constitui pontos originais e sujeitos a exame.
Uma coisa domina este ensino:
é a lei de caridade proclamada pelo Buddha – um dos mais poderosos apelos ao
bem que tem ecoado neste mundo –; mas, segundo a expressão de Léon de Rosny,[xv] “essa lei calma e pura, porque nada traz em seu apoio,
ficou ininteligível para a maioria dos homens, visto lhes revoltar os apetites
e não prometer a espécie de salário que querem ganhar”.
O Budismo, apesar das suas
manchas e sombras, nem por isso deixa de ser uma das maiores concepções
religiosas das que têm aparecido neste mundo, uma doutrina toda de amor e
igualdade, uma reação poderosa contra a distinção de castas que foi estabelecida
pelos brâmanes, doutrina que, em certos pontos, oferece analogias importantes
com o Evangelho de Jesus de Nazaré.
[i] Os signos do Zodíaco.
[ii] A idade dos Vedas ainda não pôde ser fixada.
Souryo-Shiddanto, astrônomo hindu, cujas observações sobre a posição e percurso
das estrelas remonta a cinqüenta e oito mil anos, fala dos Vedas como obras já
veneráveis pela sua antiguidade. (De O
Espiritismo ou Faquirismo Ocidental, pelo Dr. Paul Gibier, capítulo V.)
[iii] Bhagavad-Gita.
[iv] Bhagavad-Gita,
passim.
[v] Mahabhãrata, trad. H. Fauche.
[vi] Le Bouddhisme, por Léon de Rosny; La Science des Religions, por Burnouf.
[vii] Le Bouddhisme êsotêrique, por Sinnet.
[viii] Dhammapada.
[ix] La Morale du Bouddhisme.
[x] L’Ame et ses Manifestations à travers
l’Histoire. por Eug. Bonnemère.
[xi] Revue des Deux-Mofldes, 15 de março de
1876, artigo de G. Bousquet.
[xii] Le Lauta Vistara, trad. Foucaux: Le Lotus de la Bonne Lol, trad. Burnout.
[xiii] Le
Bouddhisme Esotérique, por Sinnet.
[xiv] Por que sete? Só em nosso sistema solar
contam-se oito planetas principais e as perturbações observadas em Netuno fazem
supor que existe ainda um outro para além daquele.
[xv] La
Morale du Bouddhisme.
quinta-feira, 10 de maio de 2012
A Vida Imortal
O estudo do Universo conduz-nos ao estudo da alma, à investigação do princípio que nos anima e dirige-nos os atos.Já o dissemos: a inteligência não pode provir da matéria. A Fisiologia ensina-nos que as diferentes partes do corpo humano renovam-se em um lapso de tempo que não vai além de alguns meses. Sob a ação de duas grandes correntes vitais, produz-se em nós uma troca perpétua de moléculas. Aquelas que desaparecem do organismo são substituídas, uma a uma, por outras, provenientes da alimentação. Desde as substâncias moles do cérebro até as partes mais duras da estrutura óssea, tudo em nosso ser físico está submetido a continuas mutações. O corpo dissolve-se e, numerosas vezes durante a vida, reforma-se. Entretanto, apesar dessas transformações constantes, através das modificações do corpo material, ficamos sempre a mesma pessoa. A matéria do cérebro pode renovar-se, mas o pensamento é sempre idêntico a si mesmo e com ele subsiste a memória, a recordação de um passado de que não participou o corpo atual. Há, pois, em nós um princípio distinto da matéria, uma força indivisível que persiste e se mantém entre essas perpétuas substituições.Sabemos que, por si mesma, não pode a matéria organizar-se e produzir a vida. Desprovida de unidade, ela desagrega-se e divide-se ao infinito. Em nós, ao contrário, todas as faculdades, todas as potências intelectuais e morais grupam-se em uma unidade central que as abraça, liga e esclarece, e esta unidade é a consciência, a personalidade, o Eu, ou, por outra, a Alma.A alma é o princípio da vida, a causa da sensação; é a força invisível, indissolúvel que rege o nosso organismo e mantém o acordo entre todas as partes do nosso ser.[i] Nada de comum têm as faculdades da alma com a matéria. A inteligência, a razão, o discernimento, a vontade, não poderiam ser confundidos com o sangue das nossas veias ou com a carne do nosso corpo. O mesmo sucede com a consciência, esse privilégio que temos para medir os nossos atos, para discernir o bem do mal. Essa linguagem íntima, que se dirige a todo homem, ao mais humilde ou ao mais elevado, essa voz cujos murmúrios podem perturbar o estrondo das maiores glórias nada tem de material.Correntes contrárias agitam-se em nós. Os apetites, os desejos ardentes chocam-se de encontro à razão e ao sentimento do dever. Ora, se mais não fôssemos do que matéria, não conheceríamos essas lutas, esses combates; e entregar-nos-íamos, sem mágoa, sem remorsos, às nossas tendências naturais. Mas, ao contrário, a nossa vontade está em conflito freqüente com os nossos instintos. Por meio dela podemos escapar às influências da matéria, domá-la, transformá-la em instrumento dócil. Não se têm visto homens nascidos nas mais precárias condições vencerem todos os obstáculos, a pobreza, as enfermidades, os defeitos e chegarem à primeira classe por seus esforços enérgicos e perseverantes? Não se vê a superioridade da alma sobre o corpo afirmar-se, de maneira ainda mais positiva, no espetáculo dos grandes sacrifícios e das dedicações históricas? Ninguém ignora como os mártires do dever, da verdade revelada prematuramente, como todos aqueles que, pelo bem da Humanidade, têm sido perseguidos, supliciados, levados ao patíbulo, puderam, no meio das torturas, às portas da morte, dominar a matéria e, em nome de uma grande causa, impor silêncio aos gritos da carne dilacerada!Se mais não houvesse em nós que matéria, não veríamos, quando o corpo está mergulhado no sono, o Espírito continuar a viver e agir sem auxílio algum dos nossos cinco sentidos, e assim mostrar que uma atividade incessante é a condição própria da sua natureza. A lucidez magnética, a visão a distância sem o socorro dos olhos, a previsão de fatos, a penetração do pensamento são outras tantas provas evidentes da existência da alma.Assim, pois, fraco ou poderoso, ignorante ou esclarecido, somos um Espírito; regemos este corpo que mais não é, sob nossa direção, do que um servidor, um simples instrumento. Esse Espírito que somos é livre e perfectível, por conseguinte, responsável. Pode, à vontade, melhorar-se, transformar-se e inclinar-se para o bem.Confuso em uns, luminoso em outros, um ideal esclarece o caminho. Quanto mais elevado é esse ideal, tanto mais úteis e gloriosas são as obras que inspira. Feliz a alma que, em sua marcha, é sustentada por um nobre entusiasmo: amor da verdade e da Justiça, amor da pátria e da Humanidade! Sua ascensão será rápida, sua passagem por este mundo deixará traços profundos, sulcos de onde colherá uma messe bendita.*Estabelecida a existência da alma, o problema da imortalidade impõe-se desde logo. É essa uma questão da maior importância, porque a imortalidade é a única sanção que se oferece à lei moral, a única concepção que satisfaz as nossas idéias de Justiça e responde às mais altas esperanças da Humanidade.Se como entidade espiritual nos mantemos e persistimos através do perpétuo renovamento das moléculas e transformações do nosso corpo material, a desassociação e o desaparecimento final também não poderiam atingir-nos em nossa existência.Vimos que coisa alguma se aniquila no Universo. Quando a Química nos ensina que nenhum átomo se perde, quando a Física nos demonstra que nenhuma força se dissipa, como acreditar que esta unidade prodigiosa em que se resumem todas as potências intelectuais, que este eu consciente, em que a vida se desprende das cadeias da fatalidade, possa dissolver-se e aniquilar-se? Não só a lógica e a moral, mas também os próprios fatos – como estabeleceremos adiante –, fatos de ordem sensível, simultaneamente fisiológicos e psíquicos, tudo concorre, mostrando a persistência do ser consciente depois da morte, para nos provar que além do túmulo a alma se encontra qual ela própria se fez por seus atos e trabalhos, no curso da existência terrestre.Se a morte fosse a última palavra de todas as coisas, se os nossos destinos se limitassem a esta vida fugitiva, teríamos aspirações para um estado melhor, de que nada, na Terra, nada do que é matéria pode dar-nos a idéia? Teríamos essa sede de conhecer, de saber, que coisa alguma pode saciar? Se tudo cessasse no túmulo, por que essas necessidades, esses sonhos, essas tendências inexplicáveis? Esse grito poderoso do ser humano, que retumba através dos séculos, essas esperanças infinitas, esses impulsos irresistíveis para o progresso e para a luz mais não seriam, pois, que atributos de uma sombra passageira, de uma agregação de moléculas apenas formadas e logo esvaídas? Que será então a vida terrestre, tão curta que, mesmo em sua maior duração, não nos permite atingir os limites da Ciência; tão cheia de impotência, de amargor, de desilusão, que nela nada nos satisfaz inteiramente; onde, depois de acreditar termos conseguido o objeto de nossos desejos insaciáveis, nos deixamos arrastar para um alvo, sempre cada vez mais longínquo, mais inacessível? A persistência que temos em perseguir, apesar das decepções, um ideal que não é deste mundo, uma felicidade que nos foge sempre, é uma indicação firme de que há mais alguma coisa além da vida presente. A Natureza não poderia dar ao ser aspirações e esperanças irrealizáveis. As necessidades infinitas da alma reclamam forçosamente uma vida sem limites.
leon denis
O Universo e Deus
Acima dos problemas da vida e do destino levanta-se a questão de Deus.
Se estudamos as leis da Natureza, se procuramos o princípio das verdades morais que a consciência nos revela, se pesquisamos a beleza ideal em que se inspiram todas as artes, em toda parte e sempre, acima e no fundo de tudo, encontramos a idéia de um Ser superior, de um Ser necessário e perfeito, fonte eterna do Bem, do Belo e do Verdadeiro, em que se identificam a Lei, a Justiça e a suprema Razão.
O mundo físico ou moral é governado por leis, e essas leis, estabelecidas segundo um plano, denotam uma inteligência profunda das coisas por elas regidas. Não procedem de uma causa cega: o caos e o acaso não saberiam produzir a ordem e a harmonia. Também não emanam dos homens, pois que, seres passageiros, limitados no tempo e no espaço, não poderiam criar leis permanentes e universais. Para explicá-las logicamente, cumpre remontar ao Ser gerador de todas as coisas. Não se poderia conceber a inteligência sem personificá-la em um ser, mas esse ser não vem adaptar-se à cadeia dos seres. É o Pai de todos e a própria origem da vida.
Personalidade não deve ser entendida aqui no sentido de um ser com uma forma, porém, sim, como sendo o conjunto das faculdades que constituem um todo consciente. A personalidade, na mais alta acepção da palavra, é a consciência. É assim que Deus é antes a personalidade absoluta, e não um ser que tem uma forma e limites. Deus é infinito e não pode ser individualizado, isto é, separado do mundo, nem subsistir à parte.
Quanto a não se cogitar do estudo da causa primária, como inútil e incognoscível, conforme a expressão dos positivistas, perguntaremos se a um espírito sério é realmente possível comprazer-se na ignorância das leis que regulam as condições da sua existência. A indagação de Deus impõe-se, pois que ela é o estudo da grande Alma, do princípio da vida que anima o Universo e reflete-se em cada um de nós. Tudo se torna secundário quando se trata do princípio das coisas. A idéia de Deus é inseparável da idéia da Lei, principalmente da Lei moral, e sem o conhecimento desta nenhuma sociedade pode viver ou desenvolver-se. A crença em um ideal superior de justiça fortifica a consciência e sustenta o homem em suas provações. É a consolação, a esperança daqueles que sofrem, o supremo refúgio dos aflitos, dos abandonados. Como uma aurora, ela ilumina com seus brandos raios a alma dos desgraçados.
Sem dúvida, não se pode demonstrar a existência de Deus por provas diretas e sensíveis. Deus não se manifesta aos sentidos. A divindade ocultou-se em um véu misterioso, talvez para nos constranger a procurá-la, o que é o mais nobre e mais fecundo exercício da nossa faculdade de pensar, e também para nos deixar o mérito de descobri-la. Porém, existe em nós uma força, um instinto seguro que para ela nos conduz, afirmando-nos sua existência com maior autoridade do que todas as demonstrações e todas as análises.
Em todos os tempos, debaixo de todos os climas – e isto foi a razão de ser de todas as religiões –, sentiu o Espírito humano essa tendência inata que corresponde a uma necessidade do mundo: a propensão de elevar-se acima de todas as coisas móveis, perecíveis, que constituem a vida material, acima de tudo o que é vacilante, transitório e que lhe não pode dar uma completa satisfação, para só inclinar-se ao que é fixo, permanente, imutável no Universo, a alguma coisa de absoluto e de perfeito, em que identifique todas as potências intelectuais e morais, e que seja um ponto de apoio no seu caminhar avante. Acha tudo isso em Deus, pois, fora dEle, nada pode dar-nos essa segurança, essa certeza, essa confiança no futuro, sem as quais flutuamos à mercê da dúvida e da paixão.
Objetar-nos-ão, talvez, com o uso funesto que as religiões fizeram da idéia de Deus. Mas, que importam as formas extravagantes que os homens têm emprestado à Divindade? Para nós, mais não são que deuses quiméricos, criados pela razão débil das sociedades, essas formas poéticas, graciosas ou terríveis, apropriadas às inteligências que as conceberam. O pensamento humano, agora mais amadurecido, afastou-se dessas velhas formas; esqueceu esses fantasmas e os abusos cometidos em seu nome, a fim de se dirigir com impulso poderoso à Razão eterna, para Deus, Foco Universal da vida e do amor, em que nos sentimos viver, como o pássaro no ar ou o peixe no oceano, e por quem nos sentimos ligados a tudo o que existe, foi e será!
A idéia de que as religiões vieram de Deus apoiava-se em uma revelação pretensamente sobrenatural. Ainda hoje admitimos uma revelação das leis superiores, porém racional e progressiva, que ao nosso pensamento se patenteia pela lógica dos fatos e pelo espetáculo do mundo. Essa revelação acha-se escrita em dois livros sempre abertos perante os nossos olhos: o livro do Universo onde, em caracteres grandiosos, aparecem as obras divinas; o livro da Consciência, no qual estão gravados os preceitos da moral. As instruções dos Espíritos, colhidas em todos os pontos do globo por processos simples e naturais, não fazem mais que confirmá-la. É por meio desse duplo ensino que a razão humana se comunica, no seio da Natureza universal, com a razão divina, cujas harmonias e belezas então compreende e aprecia.
*
Na hora em que se estendem pela Terra o silêncio e a noite, quando tudo repousa nas moradas humanas, se erguemos os nossos olhos para o infinito dos céus, lá veremos inumeráveis luzes disseminadas. Astros radiosos, sóis flamejantes seguidos de seus cortejos de planetas rodopiam aos milhões nas profundezas. Até às mais afastadas regiões, grupos estelares desdobram-se como esteiras luminosas. Em vão, o telescópio sonda os céus, em parte alguma do Universo encontra limites; sempre mundos sucedendo a mundos, e sóis a sóis; sempre legiões de astros multiplicando-se, a ponto de se confundirem em poeira brilhante nos abismos infindáveis do espaço.
Quais as expressões humanas que vos poderiam descrever os maravilhosos diamantes do escrínio celeste? Sirius, vinte vezes maior que o nosso Sol, e este, a seu turno, equivalendo a mais de um milhão de globos terrestres reunidos; Aldebaran, Vega, Prócion, sóis rosados, azuis, escarlates, astros de opala e de safira, sóis que derramais pela extensão os vossos raios multicores, raios que, apesar de uma velocidade de setenta mil léguas por segundo, a nós só chegam depois de centenas e de milhares de anos! E vós, nebulosas longínquas, que produzis sóis, Universos em formação, cintilantes estrelas, apenas perceptíveis, que sois focos gigantescos de calor, luz, eletricidade e vida, mundos brilhantes, esferas imensas, e vós, povos inumeráveis, raças, humanidades siderais que os habitais! Nossa fraca voz tenta, em vão, proclamar a vossa majestade, o vosso esplendor; impotente, ela se cala, enquanto nosso olhar fascinado contempla o desfilar dos astros!
Mas, quando esse olhar abandona os vertiginosos espaços para repousar sobre os mundos vizinhos da Terra, sobre as esferas filhas do Sol, que, como a nossa, gravitam em torno do foco comum, que se observa em sua superfície? Continentes e mares, montes e bancos de gelo acumulados em redor dos pólos. Observamos que esses mundos possuem ar, água, calor, luz, estações, climas, dias, noites, em uma palavra, todas as condições da vida terrestre que nos permitem presumir neles a morada de outras famílias humanas, crer que são habitados, o têm sido, ou o serão em algum dia. Tudo isto, astros resplandecentes, centros de sistemas, planetas secundários, satélites, cometas vagabundos, está suspenso no espaço, agita-se, afasta-se, percorre órbitas determinadas e é levado em rapidez espantosa através das regiões infinitas da imensidade. Por toda parte, o movimento, a atividade e a vida manifestam-se no espetáculo do Universo, povoado de mundos inumeráveis, rolando sem repouso na profundeza dos céus!
Uma lei regula essa circulação formidável: a lei universal da gravitação. Só por si, sustém e faz mover os corpos celestes; ela, só, dirige em torno dos sóis luminosos os planetas obedientes. E essa lei rege tudo na Natureza, desde o átomo até o astro. A mesma força que, sob o nome de atração, retém os mundos em suas órbitas, também, sob o de coesão, grupa as moléculas e preside à formação dos corpos químicos.
Se, depois desse rápido olhar lançado sobre os céus, compararmos a Terra em que habitamos aos poderosos sóis que se baloiçam no éter, esta, ao pé deles, apenas nos aparecerá como um grão de areia, como um átomo flutuando no infinito. A Terra é um dos menores astros do céu. Entretanto, que harmonia em sua forma, que variedade em seus ornatos! Vede seus continentes recortados; suas penínsulas esguias e engrinaldadas de ilhas; vede seus mares imponentes, seus lagos, suas florestas e seus vegetais, desde o cedro que coroa o cimo das montanhas até a humilde florzinha oculta na verdura; enumerai os seres vivos que a povoam; aves, insetos e plantas, e reconhecereis que cada uma destas coisas é uma obra admirável, uma maravilha de arte e de precisão.
E o corpo humano não é um laboratório vivo, um instrumento cujo mecanismo chega à perfeição? Estudemos nele a circulação do sangue, esse conjunto de válvulas semelhantes às de uma máquina a vapor. Examinemos a estrutura dos olhos, esse aparelho tão complicado que excede tudo o que a indústria do homem pode sonhar; a construção dos ouvidos, tão admiravelmente dispostos para recolher as ondas sonoras; o cérebro, cujas circunvoluções internas se assemelham ao desabrochamento de uma flor. Consideremos tudo isso; depois, deixando o mundo visível, desçamos mais baixo na escala dos seres, penetremos nesses abismos da vida que o microscópio revela-nos; observemos esse formigar de raças e de espécies que confundem o pensamento. Cada gota d'água, cada grão de poeira é um mundo no qual os infinitamente pequenos são governados por leis tão exatas quanto as dos gigantes do espaço. Milhões de infusórios agitam-se nas gotas do nosso sangue, nas células dos corpos organizados. A asa da mosca e o menor átomo de matéria são povoados por legiões de parasitas. E todos esses animálculos são providos de aparelhos de movimento, de sistemas nervosos e de órgãos de sensibilidade que os fazem seres completos, armados para a luta e para as necessidades da existência. Até no seio do oceano, nas profundezas de oito mil metros, vivem seres delicados, débeis, fosforescentes, que fabricam luz e têm olhos para vê-la. Assim, em todos os meios imagináveis, uma fecundidade ilimitada preside à formação dos seres. A Natureza está em geração perpétua. Assim como a espiga se acha em germe no grão, o carvalho na bolota, a rosa em seu botão, assim também a gênese dos mundos elabora-se na profundeza dos céus estrelados. Por toda parte a vida engendra a vida. De degrau em degrau, de espécies em espécies, num encadeamento, ela eleva-se dos organismos mais simples, os mais elementares, até ao ser pensante e consciente; em uma palavra, até ao homem.
Uma poderosa unidade rege o mundo. Uma só substância, o éter ou fluido universal, constitui em suas transformações infinitas a inumerável variedade dos corpos. Esse elemento vibra sob a ação das forças cósmicas. Conforme a velocidade e o número dessas vibrações, assim se produz o calor, a luz, a eletricidade ou o fluido magnético. Condensem-se tais vibrações e logo os corpos aparecerão.
E todas essas formas se ligam, todas essas forças se equilibram, consorciam-se em perpétuas trocas, numa estreita solidariedade. Do mineral à planta, da planta ao animal e ao homem, do homem aos seres superiores, a apuração da matéria, a ascensão da força e do pensamento produzem-se em ritmo harmonioso. Uma lei soberana regula num plano uniforme as manifestações da vida, enquanto um laço invisível une todos os Universos e todas as almas.
Do trabalho dos seres e das coisas depreende-se uma aspiração para o infinito, para o perfeito. Todos os efeitos divergentes na aparência convergem realmente para um mesmo centro, todos os fins coordenam-se, formam um conjunto, evoluem para um mesmo alvo. E esse alvo é Deus, centro de toda a atividade, fim derradeiro de todo o pensamento e de todo o amor.
O estudo da Natureza mostra-nos, em todos os lugares, a ação de uma vontade oculta. Por toda parte a matéria obedece a uma força que a domina, organiza e dirige. Todas as forças cósmicas reduzem-se ao movimento e o movimento é o Ser, é a Vida. O materialismo explica a formação do mundo pela dança cega e aproximação fortuita dos átomos. Mas viu-se alguma vez o arremesso ao acaso das letras do alfabeto produzir um poema? E que poema o da vida universal! Já se viu, de alguma sorte, um amálgama de matérias produzir, por si mesmo, um edifício de proporções imponentes, ou um maquinismo de rodas numerosas e complicadas? Entregue a si mesma, nada pode a matéria. Inconscientes e cegos, os átomos não poderiam tender a um fim. Só se explica a harmonia do mundo pela intervenção de uma vontade. É pela ação das forças sobre a matéria, pela existência de leis sábias e profundas, que tal vontade se manifesta na ordem do Universo.
Objetam muitas vezes que nem tudo na Natureza é harmônico. Se produz maravilhas, dizem, cria também monstros. Por toda parte o mal ladeia o bem. Se a lenta evolução das coisas parece preparar o mundo para tornar-se o teatro da vida, cumpre não perder de vista o desperdício das existências e a luta ardente dos seres. Cumpre não esquecer que tempestades, tremores de terra, erupções vulcânicas desolam algumas vezes a Terra e destroem, em poucos momentos, os trabalhos de várias gerações.
Sim, sem dúvida, há acidentes na obra da Natureza, mas tais acidentes não excluem a idéia da ordem e de um desígnio; ao contrário, apóiam a nossa tese, pois poderíamos perguntar por que nem tudo é acidente.
A apropriação das causas aos efeitos, dos meios aos fins, dos órgãos entre si, sua adaptação às circunstâncias, às condições da vida são manifestas. A indústria da Natureza, análoga em bastantes pontos e superior à do homem, prova a existência de um plano, e a atividade dos elementos que concorrem para a sua realização denota uma causa oculta, infinitamente sábia e poderosa.
A objeção sobre o fato de existirem monstros provém de uma falta de observação. Estes mais não são que germes desviados. Se, ao sair, um homem quebra uma perna, torna-se por isso responsável a Natureza ou Deus? Assim também, em conseqüência de acidente, de desordens sucedidas durante a gestação, os germes podem sofrer desvio no útero materno. Estamos habituados a datar a vida desde o nascimento, desde a aparição à luz, e, entretanto, ela tem o seu ponto de partida muito mais longe.
O argumento arrancado à existência dos flagelos tem por origem uma falsa interpretação do alvo da vida. Não deve esta trazer-nos somente vantagens; é útil, é necessário que nos apresente também dificuldades, obstáculos. Todos nós nascemos e devemos morrer, e, no entanto, admiramo-nos de que certos homens morram por acidente! Seres passageiros neste mundo, de onde nada levamos para além, lamentamo-nos pela perda de bens materiais, de bens que, por si só, se teriam perdido em virtude das leis naturais! Esses acontecimentos espantosos, essas catástrofes, esses flagelos trazem consigo um ensino. Lembram que da Natureza não devemos só esperar coisas agradáveis, mas, principalmente, coisas propícias à nossa educação e ao nosso adiantamento; que não estamos neste mundo para gozar e adormecer na quietação, mas para lutar, trabalhar, combater. Demonstram que o homem não foi feito unicamente para a Terra, que deve olhar mais alto, dar-se às coisas materiais em justos termos e refletir que seu ser não se destrói com a morte.
A doutrina da evolução não exclui a das causas primárias e das causas finais. A alta idéia que se pode fazer de um ordenador é supô-lo formando um mundo capaz de se desenvolver por suas próprias forças, e não por uma intervenção incessante, por contínuos milagres.
A Ciência, à proporção que se adianta no conhecimento da Natureza, tem conseguido fazer recuar a idéia de Deus, mas esta se engrandece, recuando. O Ser eterno, do ponto de vista teórico, tornou-se tão majestoso como o Deus fantástico da Bíblia. O que a Ciência derruiu para sempre foi a noção de um Deus antropomorfo, feito à imagem do homem, e exterior ao mundo físico. Porém, a essa noção veio substituir uma outra mais elevada, a de Deus, imanente, sempre presente no seio das coisas. Para nós, a idéia de Deus não mais exprime hoje a de um ser qualquer, porém, sim, a do Ser que contém todos os seres.
O Universo não é mais essa criação, essa obra tirada do nada de que falam as religiões. É um organismo imenso animado de vida eterna. Assim como o nosso corpo é dirigido por uma vontade central que governa os seus atos e regula os seus movimentos, do mesmo modo que através das modificações da carne nos sentimos viver em uma unidade permanente a que chamamos Alma, Consciência, Eu, assim também o Universo, debaixo de suas formas cambiantes, variadas, múltiplas, reflete-se, conhece-se, possui-se em uma Unidade viva, em uma Razão consciente, que é Deus.
O Ser supremo não existe fora do mundo, porque este é a sua parte integrante e essencial. Ele é a Unidade central onde vão desabrochar e harmonizar-se todas as relações. É o princípio de solidariedade e de amor, pelo qual todos os seres são irmãos. É o foco de onde se irradiam e se espalham no infinito todas as potências morais: a Sabedoria, a Justiça e a Bondade.
Não há, portanto, criação espontânea, miraculosa; a criação é contínua, sem começo nem fim. O Universo sempre existiu; possui em si o seu princípio de força, de movimento. Traz consigo seu fito. O Universo renova-se incessantemente em suas partes; no conjunto, é eterno. Tudo se transforma, tudo evolui pelo jogo contínuo da vida e da morte, mas nada perece. Enquanto, nos céus, se obscurecem e se extinguem sóis, enquanto mundos envelhecidos desagregam-se e desfazem-se, em outros pontos, sistemas novos elaboram-se, astros se acendem e mundos vêm à luz. De par com a decrepitude e com a morte, humanidades novas desabrocham em eterno renovar.
E, através dos tempos sem-fim e dos espaços sem limites, a obra grandiosa prossegue pelo trabalho de todos os seres, solidários uns com os outros, e em proveito de cada um. O Universo oferece-nos o espetáculo de uma evolução incessante, para a qual todos concorrem, da qual todos participam. A essa obra gigantesca preside um princípio imutável. É a Unidade universal, unidade divina, que abraça, liga, dirige todas as individualidades, todas as atividades particulares, fazendo-as convergir para um fim comum, que é a Perfeição na plenitude da existência.
*
Ao mesmo tempo em que as leis do mundo físico mostram-nos a ação de um sublime ordenador, as leis morais, por intermédio da consciência e da razão, falam-nos eloqüentemente de um princípio de justiça, de uma providência universal.
O espetáculo da Natureza, o aspecto dos céus, das montanhas, dos mares, apresentam ao nosso espírito a idéia de um Deus oculto no Universo.
A consciência mostra-o em nós, ou, antes, dá-nos alguma coisa dele, que é o sentimento do Dever e do Bem; é um ideal moral para onde tendem as faculdades do espírito e do coração. O dever ordena imperiosamente, impõe-se; sua voz domina todas as potências da alma. Possui uma força que impele os homens até ao sacrifício, até à morte. Por si só, dá à existência sua grandeza e sua dignidade. A voz da consciência é a manifestação em nós de uma Potência superior à matéria, de uma Realidade viva e ativa.
A razão igualmente nos fala de Deus. Os sentidos fazem-nos conhecer o mundo material, o mundo dos efeitos; a razão revela-nos o mundo das causas. A razão é superior à experiência. Esta verifica os fatos, a razão agrupa-os e deduz as suas leis. Por si só, demonstra que, na origem do movimento e da vida, se acha a inteligência; que o menor não pode conter o maior, nem o inconsciente produzir o consciente, fato este que, entretanto, resultaria da concepção de um universo que se ignorasse a si mesmo. A razão descobriu as leis universais antes da experiência; o que esta fez foi tão-somente confirmar as suas previsões e fornecer as provas. Porém, há graus na razão; ela não é igualmente desenvolvida em todos os homens. Daí a desproporção e a variedade de opiniões.
Se o homem soubesse recolher-se e estudar a si próprio, se sua alma desviasse toda a sombra que as paixões acumulam, se, rasgando o espesso véu em que o envolvem os preconceitos, a ignorância, os sofismas, descesse ao fundo da sua consciência e da sua razão, acharia aí o princípio de uma vida interior oposta inteiramente à vida externa. Poderia, então, entrar em relação com a Natureza inteira, com o Universo e Deus, e essa vida lhe daria um antegozo daquela que lhe reservam o futuro de além-túmulo e os mundos superiores. Aí também está o registro misterioso em que todos os seus atos, bons ou maus, ficam inscritos, em que todos os fatos de sua vida se gravam em caracteres indeléveis, para reaparecerem à hora da morte, como brilhante clarão.
Algumas vezes, uma voz poderosa, um canto grave e severo ergue-se dessas profundezas do ser, retumba no meio das ocupações frívolas e dos cuidados da nossa vida, a fim de chamar-nos ao dever. Infeliz daquele que recusa ouvi-la! Chegará o tempo em que o remorso ardente lhe ensinará que não se repelem impunemente as advertências da consciência.
Sim, há em cada um de nós fontes ocultas de onde podem brotar ondas de vida e de amor, virtudes, potências inumeráveis. É aí, é nesse santuário íntimo que cumpre procurar Deus. Deus está em nós, ou, pelo menos, há em nós um reflexo dEle. Ora, o que não existe não poderia ser refletido. As almas refletem Deus como as gotas do orvalho da manhã refletem os fogos do Sol, cada qual segundo o seu brilho e grau de pureza.
É por essa refração, por essa percepção interna, e não pela experiência dos sentidos, que os homens de gênio, os grandes missionários, os profetas conheceram Deus e suas leis, e revelaram-nas aos povos da Terra.
*
Pode-se levar mais longe do que temos feito a definição de Deus? Definir é limitar. Em face deste grande problema, a fraqueza humana aparece. Deus impõe-se ao nosso espírito, porém escapa a toda análise. O Ser que enche o tempo e o espaço não será jamais medido por seres limitados pelo tempo e pelo espaço. Querer definir Deus seria circunscrevê-lo e quase negá-lo.
As causas secundárias da vida se explicam, mas a causa primária permanece inacessível em sua imensidade. Só chegaremos a compreendê-la depois de termos atravessado a morte bastantes vezes.
Para resumir, tanto quanto podemos, tudo o que pensamos referente a Deus, diremos que Ele é a Vida, a Razão, a Consciência em sua plenitude. É a causa eternamente operante de tudo o que existe. É a comunhão universal onde cada ser vai sorver a existência, a fim de, em seguida, concorrer, na medida de suas faculdades crescentes e de sua elevação, para a harmonia do conjunto.
Eis-nos bem longe do Deus das religiões, do Deus “forte e cioso” que se cerca de coriscos, reclama vítimas sangrentas e pune os réprobos por toda a eternidade. Os deuses antropomórficos passaram. Fala-se ainda muito de um Deus a quem são atribuídas as fraquezas e as paixões humanas, porém esse Deus vê todos os dias diminuir o seu império.
Até aqui o homem só viu Deus através de seu próprio ser, e a idéia que dele fez variava segundo o contemplava por uma ou outra de suas faculdades. Considerado pelo prisma dos sentidos, Deus é múltiplo; todas as forças da Natureza são deuses; assim nasceu o Politeísmo. Visto pela inteligência, Deus é duplo: espírito e matéria; daí o Dualismo. À razão esclarecida ele aparece triplo: alma, espírito e corpo. Esta concepção deu nascimento às religiões trinitárias da Índia e ao Cristianismo. Percebido pela vontade, faculdade soberana que resume todas as outras, compreendido pela intuição íntima, que é uma propriedade adquirida lentamente, assim como todas as faculdades do gênio, Deus é Uno e Absoluto. Nele se ligam os três princípios constitutivos do Universo para formarem uma Unidade viva.
Assim se explica a diversidade das religiões e dos sistemas, tanto mais elevados quanto têm sido concebidos por espíritos mais puros e mais esclarecidos. Quando se consideram as coisas por cima, as oposições de idéias, as religiões e os fatos históricos se explicam e se reconciliam numa síntese superior.
A idéia de Deus, debaixo das formas diversas em que o têm revestido, evolve entre dois escolhos nos quais esbarraram numerosos sistemas. Um é o Panteísmo, que conclui pela absorção final dos seres no grande Todo. Outro é a noção do infinito, que do homem afasta Deus, e por tal sorte que até parece suprimir toda a relação entre ambos.
A noção do infinito foi combatida por certos filósofos. Embora incompreensível, não se poderia abandoná-la, porque reaparece em todas as coisas. Por exemplo: que há de mais sólido do que o edifício das ciências exatas? O número é a sua base. Sem o número não há matemáticas. Ora, é impossível, decorressem mesmo séculos, encontrar o número que exprima a infinidade dos números cuja existência o pensamento nos demonstra. O número é infinito; o mesmo sucede com o tempo e com o espaço. Além dos limites do mundo invisível, o pensamento procura outros limites que incessantemente se furtam à sua apreensão.
Uma só filosofia parece ter evitado esse duplo escolho e conseguido aliar princípios opostos na aparência. É a dos druidas gauleses. Assim se exprimiam na tríade 48:
“Três necessidades de Deus: ser infinito em si mesmo, ser finito para com o finito, e estar em relação com cada estado das existências no círculo dos mundos.”
Assim, conforme este ensino, ao mesmo tempo simples e racional, o Ser infinito e Absoluto, por si próprio, faz-se relativo e finito com as suas criaturas, desvendando-se sem cessar sob aspectos novos, na medida do adiantamento e elevação das almas. Deus está em relação com todos os seres. Penetra-os com o seu espírito, abraça-os com o seu amor, para uni-los em um laço comum e assim auxiliá-los a realizar seus intentos nobres.
Sua revelação, ou, antes, a educação que Ele dá às humanidades faz-se gradual e progressivamente pelo ministério dos grandes Espíritos. A intervenção providencial está registrada na História por aparições em tempos prescritos, no seio dessas humanidades, pelas manifestações de almas eleitas, encarregadas de introduzirem nelas as inovações, as descobertas que acelerarão os seus progressos, ou de ensinar os princípios de ordem moral necessários à regeneração das sociedades.
O druidismo, em vez da teoria da absorção final dos seres em Deus, tinha a do ceugant, círculo superior que encerrava todos os outros, morada exclusiva do Ser divino. A evolução e o progresso das almas, prosseguindo infinitamente, não podiam ter fim.
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Voltemos ao problema do mal, de que só incidentemente tratamos, e que a tantos pensadores tem preocupado.
Por que Deus, causa primária de tudo quanto existe, perguntam os cépticos, permite que no Universo subsista o mal?
Vimos que o mal físico, ou o que é considerado tal, em realidade não é mais que uma ordem de fenômenos naturais. O caráter maléfico destes ficou explicado desde que foi conhecida a verdadeira origem das coisas. A erupção de um vulcão não é mais extraordinária que a ebulição de um vaso cheio d'água. O raio que derriba edifícios e árvores é da mesma natureza que a centelha elétrica, veículo do nosso pensamento. Outro tanto sucede com qualquer fenômeno violento. Resta a dor física. Mas sabe-se que ela é a conseqüência da sensibilidade, e isso é já um magnífico conhecimento conquistado pelo ser depois de longos períodos que passou nas formas inferiores da vida. A dor é uma advertência necessária, um estimulante à vontade do homem, pois nos obriga a concentrarmos para refletir e força-nos a domar as paixões. A dor é o caminho do aperfeiçoamento.
Porém, o mal moral, dirão, o vicio, o crime, a ignorância, a vitória do mau e o infortúnio do justo, como explicá-los?
Primeiramente, em que ponto de vista se coloca quem pretende julgar estas coisas? Se o homem não vê senão uma partícula do mundo em que habita, se só considera a sua curta passagem pela Terra, como poderá conhecer a ordem eterna e universal? Para avaliar o bem e o mal, o verdadeiro e o falso, o justo e o injusto cumpre nos elevarmos acima dos estreitos limites da vida atual e considerar o conjunto dos nossos destinos. Então o mal aparece tal como é, como um estado transitório inerente ao nosso mundo, como uma das fases inferiores da evolução dos seres para o Bem. Não é em nosso mundo nem em nossa época que se deve procurar o ideal perfeito, mas na imensidade dos mundos e na eternidade dos tempos.
Entretanto, se seguirmos o aperfeiçoamento contínuo das condições vitais do planeta, a lenta evolução das espécies e das raças através das idades; se considerarmos o homem dos tempos pré-históricos, o antropóide das cavernas, com instintos ferozes, e as condições de sua vida miserável, e se compararmos depois esse ponto de partida com os resultados obtidos pela civilização atual, veremos claramente a tendência constante dos seres e das coisas para um ideal de perfeição. A própria evidência, mostrando-nos que a vida sempre se melhora, se transforma e se enriquece, que o montante do bem aumenta sem cessar e que o dos males diminui, obriga-nos a reconhecer esse encaminhamento gradual das humanidades para o melhor.
Mesmo pondo em linha de conta os tempos de parada e, algumas vezes, até os retrocessos nesse grande movimento, ninguém deve esquecer que o homem é livre e pode dirigir-se à vontade num sentido ou em outro, não sendo possível o seu aperfeiçoamento senão quando a vontade está de acordo com a lei.
O mal, oposição à lei divina, não pode ser obra de Deus; é, portanto, obra do homem, a conseqüência da sua liberdade. Porém o mal, como a sombra, não tem existência real; é, antes, um efeito de contraste. As trevas se dissipam diante da luz; assim também o mal se evapora logo que o bem aparece. Em uma palavra, o mal é a ausência do bem.
Diz-se algumas vezes que Deus bem poderia ter criado as almas perfeitas, para assim lhes poupar as vicissitudes e os males da vida terrestre. Sem nos ocuparmos de saber se Deus poderia formar seres semelhantes a si, responderemos que, se assim fosse, a vida e a atividade universais, a variedade, o trabalho, o progresso não mais teriam um fito e o mundo ficaria preso em sua imóvel perfeição. Ora, a magnífica evolução dos seres através dos tempos, a atividade das almas e dos mundos, elevando-se para o Absoluto, não é preferível a um repouso insípido e eterno? Um bem que não se tem merecido nem conquistado será mesmo um bem? E aquele que o obtivesse sem esforço poderia ao menos apreciar o seu valor?
Diante da vasta perspectiva de nossas existências, cada uma das quais é um combate para a luz, diante dessa ascensão prodigiosa do ser, elevando-se de círculos em círculos para o Perfeito, o problema do mal desaparece.
Sair das baixas regiões da matéria e ascender todos os degraus da imensa hierarquia dos Espíritos, libertar-se do jugo das paixões e conquistar uma a uma todas as virtudes, todas as ciências, tal é o fim para o qual a Providência formou as almas e dispôs os mundos, teatros predestinados a lutas e trabalhos.
Acreditemos nela e bendigamo-la! Acreditemos nessa Providência generosa, que tudo fez para o nosso bem; lembremo-nos de que, se parecem existir lacunas em sua obra, essas só provêm da nossa ignorância e da insuficiência da nossa razão. Acreditemos em Deus, grande espírito da Justiça no Universo. Tenhamos confiança em sua sabedoria, que reserva compensações a todos os sofrimentos, alegria a todas as dores, e avancemos de coração firme para os destinos que Ele nos escolheu.
É belo, é consolador e doce poder caminhar na vida com a fronte levantada para os céus, sabendo que, mesmo nas tempestades, no seio das mais cruéis provas, no fundo dos cárceres, como à beira dos abismos, uma Providência, uma lei divina paira sobre nós, rege os nossos atos, e que, de nossas lutas, de nossas torturas, de nossas lágrimas, fez sair a nossa própria glória e a nossa felicidade. É aí, nesses pensamentos, que está toda a força do homem de bem!
leon denis
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