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sexta-feira, 4 de maio de 2012

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as religioes a doutrina secreta

               


                      As Religiões - A Doutrina Secreta

Quando se lança um golpe de vista sobre o passado, quando se evoca a recordação das religiões desaparecidas, das crenças extintas, apodera-se de nós uma espécie de vertigem ante o aspecto das sinuosidades percorridas pelo pensamento humano. Lenta é sua marcha. Parece, a princípio, comprazer-se nas criptas sombrias da Índia, nos templos subterrâneos do Egito, nas catacumbas de Roma, na meia-luz das catedrais; parece preferir os lugares escuros à atmosfera pesada das escolas, o silêncio dos claustros às claridades do céu, aos livres espaços, em uma palavra, ao estudo da Natureza.
Um primeiro exame, uma comparação superficial das crenças e das superstições do passado conduz inevitavelmente à dúvida. Mas, levantando-se o véu exterior e brilhante que ocultava às massas os grandes mistérios, penetrando-se nos santuários da idéia religiosa, achamo-nos em presença de um fato de alcance considerável. As formas materiais, as cerimônias extravagantes dos cultos tinham por fim chocar a imaginação do povo. Por trás desses véus, as religiões antigas apareciam sob aspecto diverso, revestiam caráter grave e elevado, simultaneamente científico e filosófico. Seu ensino era duplo: exterior e público de um lado, interior e secreto de outro, e, neste último caso, reservado somente aos iniciados. Conseguiu-se, não há muito, reconstituir esse ensino secreto, após pacientes estudos e numerosas descobertas epigráficas.  Desde então, dissiparam-se a obscuridade e a confusão que reinavam nas questões religiosas; com a luz, fez-se a harmonia. Adquiriu-se a prova de que todos os ensinos religiosos do passado se ligam, porque, em sua base, se encontra uma só e mesma doutrina, transmitida de idade em idade a uma série ininterrupta de sábios e pensadores.
Todas as grandes religiões tiveram duas faces, uma aparente, outra oculta. Está nesta o espírito, naquela a forma ou a letra. Debaixo do símbolo material, dissimula-se o sentido profundo. O Bramanismo, na Índia, o Hermetismo, no Egito, o Politeísmo grego, o próprio Cristianismo, em sua origem, apresentam esse duplo aspecto. Julgá-las pela face exterior e vulgar é o mesmo que apreciar o valor moral de um homem pelos trajes. Para conhecê-las é preciso penetrar o pensamento íntimo que lhes inspira e motiva a existência; cumpre desprender do selo dos mitos e dogmas o princípio gerador que lhes comunica a força e a vida. Descobre-se, então, a doutrina única, superior, imutável, de que as religiões humanas não são mais que adaptações imperfeitas e transitórias, proporcionadas às necessidades dos tempos e dos meios.
Em nossa época, muitos fazem uma concepção do Universo, uma idéia da verdade, absolutamente exterior e material. A ciência moderna, em suas investigações, tem-se limitado a acumular o maior número de fatos e, depois, a deduzir daí as suas leis. Obteve, assim, maravilhosos resultados, porém, por tal preço, ficar-lhe-á sempre inacessível o conhecimento dos princípios superiores e das causas primitivas. As próprias causas secundárias escapam-lhe. O domínio invisível da vida é mais vasto do que aquele que é atingido pelos nossos sentidos: lá reinam essas causas de que somente vemos os efeitos.
Na antiguidade tinham outra maneira de ver, e um proceder muito diferente. Os sábios do Oriente e da Grécia não desdenhavam observar a natureza exterior, porém era sobretudo no estudo da alma, de suas potências íntimas, que descobriam os princípios eternos. Para eles, a alma era como um livro em que se inscrevem, em caracteres misteriosos, todas as realidades e todas as leis. Pela concentração de suas faculdades, pelo estudo profundo e meditativo de si mesmos, elevaram-se até à Causa sem causa, até ao princípio de que derivam os seres e as coisas. As leis inatas da inteligência explicavam-lhes a harmonia e a ordem da Natureza, assim como o estudo da alma lhes dava a chave dos problemas da vida.
A alma, acreditavam, colocada entre dois mundos, o visível e o oculto, o material e o espiritual, observando-os, penetrando em ambos, é o instrumento supremo do conhecimento. Conforme seu grau de adiantamento ou de pureza, reflete, com maior ou menor intensidade, os raios do foco divino. A razão e a consciência não só guiam nossa apreciação e nossos atos, mas também são os mais seguros meios para adquirir-se e possuir-se a verdade.
A tais pesquisas era consagrada a vida inteira dos iniciados. Não se limitavam, como em nossos dias, a preparar a mocidade com estudos prematuros, insuficientes, mal dirigidos, para as lutas e deveres da existência. Os adeptos eram escolhidos, preparados desde a infância para a carreira que deviam preencher e, depois, levados gradualmente aos píncaros intelectuais, de onde se pode dominar e julgar a vida. Os princípios da ciência secreta eram-lhes comunicados numa proporção relativa ao desenvolvimento das suas inteligências e qualidades morais. A iniciação era uma refundição completa do caráter, um acordar das faculdades latentes da alma. Somente quando tinha sabido extinguir em si o fogo das paixões, comprimir os desejos impuros, orientar os impulsos do seu ser para o Bem e para o Belo, é que o adepto participava dos grandes mistérios. Obtinha, então, certos poderes sobre a Natureza, e comunicava-se com as potências ocultas do Universo.
Não deixam subsistir dúvida alguma sobre tal ponto os testemunhos da História a respeito de Apolônio de Tiana e de Simão, o Mago, bem como os fatos, pretensamente miraculosos, levados a efeito por Moisés e pelo Cristo. Os iniciados conheciam os segredos das forças fluídicas e magnéticas. Esse domínio, pouco familiar aos sábios dos nossos dias, a quem se afiguram inexplicáveis os fenômenos do sonambulismo e da sugestão, no meio dos quais se debatem impotentes em conciliá-los com teorias preconcebidas,  esse domínio, a ciência oriental dos santuários havia explorado, e estava possuidora de todas as suas chaves. Nele encontrava meios de ação incompreensíveis para o vulgo, mas facilmente explicáveis pelos fenômenos do Espiritismo. Em suas experiências fisiológicas, a ciência contemporânea chegou ao pórtico desse mundo oculto conhecido dos antigos e regido por leis exatas. Ainda bem perto está o dia em que a força dos acontecimentos e o exemplo dos audaciosos constrangê-la-ão a tal. Reconhecerá, então, que nada há aí de sobrenatural, mas, ao contrário, uma face ignorada da Natureza, uma manifestação das forças sutis, um aspecto novo da vida que enche o infinito.
Se, do domínio dos fatos, passarmos ao dos princípios, teremos de esboçar desde logo as grandes linhas da doutrina secreta. Ao ver desta, a vida não é mais que a evolução, no tempo e no espaço, do Espírito, única realidade permanente. A matéria é sua expressão inferior, sua forma variável. O Ser por excelência, fonte de todos os seres, é Deus, simultaneamente triplo e uno – essência, substância e vida –, em que se resume todo o Universo. Daí o deísmo trinitário que, da Índia e do Egito, passou, desfigurando-se, para a doutrina cristã. Esta, dos três elementos do Ser, fez as pessoas. A alma humana, parcela da grande alma, é imortal. Progride e sobe para o seu autor através de existências numerosas, alternativamente terrestres e espirituais, por um aperfeiçoamento contínuo. Em suas encarnações, constitui ela o homem, cuja natureza ternária – o corpo, o perispírito e a alma –, centros correspondentes da sensação, sentimento e conhecimento, torna-se um microcosmo ou pequeno mundo, imagem reduzida do macrocosmo ou Grande-Todo. Eis por que podemos encontrar Deus no mais profundo do nosso ser, interrogando a nós mesmos na solidão, estudando e desenvolvendo as nossas faculdades latentes, a nossa razão e consciência. Tem duas faces a vida universal: a involução ou descida do Espírito à matéria para a criação individual, e a evolução ou ascensão gradual, na cadeia das existências, para a Unidade divina.
Prendia-se a esta filosofia um feixe inteiro de ciências: a Ciência dos Números ou Matemáticas Sagradas, a Teogonia, a Cosmogonia, a Psicologia e a Física. Nelas, os métodos indutivo e experimental combinavam-se e serviam-se reciprocamente de verificação, formando, assim, um todo imponente, um edifício de proporções harmônicas.
Este ensino abria ao pensamento perspectivas suscetíveis de causarem vertigem aos espíritos mal preparados, e por isso era somente reservado aos fortes. Se, por verem o infinito, as almas débeis ficam perturbadas e desvairadas, as valentes fortificam-se e medram. É no conhecimento das leis superiores que estas vão beber a fé esclarecida, a confiança no futuro, a consolação na desgraça. Tal conhecimento produz benevolência para com os fracos, para com todos esses que se agitam ainda nos círculos inferiores da existência, vítimas das paixões e da ignorância; inspira tolerância para com todas as crenças. O iniciado sabia unir-se a todos e orar com todos. Honrava Brahma na Índia, Osíris em Mênfis, Júpiter na Olímpia, como pálidas imagens da Potência Suprema, diretora das almas e dos mundos. É assim que a verdadeira religião se eleva acima de todas as crenças e a nenhuma maldiz.
O ensino dos santuários produziu homens realmente prodigiosos pela elevação de vistas e pelo valor das obras realizadas, uma elite de pensadores e de homens de ação, cujos nomes se encontram em todas as páginas da História. Daí saíram os grandes reformadores, os fundadores de religiões, os ardentes propagandistas: Krishna, Zoroastro, Hermes, Moisés, Pitágoras, Platão e Jesus; todos os que têm posto ao alcance das multidões as verdades sublimes que fazem sua superioridade. Lançaram aos ventos a semente que fecunda as almas, promulgaram a lei moral, imutável, sempre e em toda parte semelhante a si mesma. Mas, não souberam os discípulos guardar intacta a herança dos mestres. Mortos estes, os seus ensinos ficaram desnaturados e desfigurados por alterações sucessivas. A mediocridade dos homens não era apta a perceber as coisas do espírito e bem depressa as religiões perderam a sua simplicidade e pureza primitivas. As verdades que tinham sido ensinadas foram sufocadas sob os pormenores de uma interpretação grosseira e material. Abusou-se dos símbolos para chocar a imaginação dos crentes e, muito breve, a idéia máter ficou sepultada e esquecida sob eles. A verdade é comparável às gotas de chuva que oscilam na extremidade de um ramo. Enquanto aí ficam suspensas, brilham como puros diamantes aos raios do Sol; desde, porém, que tocam o chão, confundem-se com todas as impurezas. O que nos vem de cima mancha-se ao contacto terrestre. Até mesmo ao seio dos templos levou o homem as suas concupiscências e misérias morais. Por isso, em cada religião, o erro, este apanágio da Terra, mistura-se com a verdade, este bem dos céus.
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Pergunta-se algumas vezes se a religião é necessária. A religião (do latim religare, ligar, unir), bem compreendida, deveria ser um laço que prendesse os homens entre si, unindo-os por um mesmo pensamento ao princípio superior das coisas. Há na alma um sentimento natural que a arrasta para um ideal de perfeição em que se identificam o Bem e a Justiça. Este sentimento, o mais nobre que poderemos experimentar, se fosse esclarecido pela Ciência, fortificado pela razão, apoiado na liberdade de consciência, viria a ser o móvel de grandes e generosas ações; mas, manchado, falseado, materializado, tornou-se, muitas vezes, pelas inquietações da teocracia, um instrumento de dominação egoística.
A religião é necessária e indestrutível porque se baseia na própria natureza do ser humano, do qual ela resume e exprime as aspirações elevadas. É, igualmente, a expressão das leis eternas e, sob este ponto de vista, tende a confundir-se com a filosofia, fazendo com que esta passe do domínio da teoria ao da execução, tornando-se vivaz e ativa.
Mas, para exercer uma influência salutar, para voltar a ser um incitante de progresso e elevação, a religião deve despojar-se dos disfarces com que se revestiu através dos séculos. Não são os seus elementos primordiais que devem desaparecer, mas, sim, as formas exteriores, os mitos obscuros, o culto, as cerimônias. Cumpre evitar confundir coisas tão dessemelhantes. A verdadeira religião é um sentimento; é no coração humano, e não nas formas ou manifestações exteriores, que está o melhor templo do Eterno. A verdadeira religião não poderia ser encerrada dentro de regras e ritos acanhados; não necessita de sacerdotes nem de fórmulas nem de imagens.
Pouco se inquieta com simulacros e modos de adorar; só julga os dogmas por sua influência sobre o aperfeiçoamento das sociedades. Abraça todos os cultos, todos os sacerdócios, eleva-se bastante e diz-lhes: A Verdade ainda está muito acima!
Entretanto, deve-se compreender que nem todos os homens se acham em vias de atingir esses píncaros intelectuais. Eis por que a tolerância e a benevolência são coisas que se impõem. Se, por um lado, o dever convida-nos a desprender os bons espíritos dos aspectos vulgares da religião, por outro, é preciso nos abstermos de lançar a pedra às almas sofredoras, lacrimosas, incapazes de assimilar noções abstratas, mas que encontram arrimo e conforto na sua cândida fé.
Verifica-se, porém, que, de dia para dia, diminui o número dos crentes sinceros. A idéia de Deus, outrora simples e grande nas almas, foi desnaturada pelo temor do inferno e perdeu seu poder. Na impossibilidade de se elevarem até ao absoluto, certos homens acreditaram ser necessário adaptar à sua forma e medida tudo o que queriam conceber. Foi assim que rebaixaram Deus ao nível deles próprios, atribuindo-lhe as suas paixões e fraquezas, amesquinhando a Natureza e o Universo, e, sob o prisma da ignorância, decompondo em cores diversas os argênteos raios da verdade. As claras noções da religião natural foram obscurecidas a bel-prazer. A ficção e a fantasia engendraram o erro e este, preso ao dogma, ergueu-se como um obstáculo no meio do caminho. A luz ficou velada para aqueles que se acreditavam seus depositários e as trevas, com que pretendiam envolver os outros, fizeram-se em si próprios e ao seu redor. Os dogmas perverteram o critério religioso, e o interesse de casta falseou o senso moral. Daí um acervo de superstições, de abusos e práticas idólatras, cujo espetáculo lançou tantos homens na negação.
A reação, porém, anuncia-se. As religiões, imobilizadas em seus dogmas como as múmias em suas faixas, agora agonizam, abafadas em seus invólucros materiais, enquanto tudo marcha e evolve em torno delas. Perderam quase toda a influência sobre os costumes, sobre a vida social, e estão destinadas a perecer. Mas, como todas as coisas, as religiões só morrem para renascer. A idéia que os homens fazem da Verdade modifica-se e dilata com o decorrer dos tempos. Eis por que as religiões, manifestações temporárias, vistas parciais da eterna Verdade, tendem a transformar-se desde que já tenham cumprido a sua tarefa, e não mais correspondam aos progressos e às necessidades da Humanidade. À medida que esta caminha, são precisas novas concepções, um ideal mais elevado, e isso só poderá ser encontrado nas descobertas da Ciência, nas intuições crescentes do pensamento. Chegamos a uma época da História em que as religiões encanecidas aluem-se por suas bases, época em que se prepara uma renovação filosófica e social. O progresso material e intelectual desafia o progresso moral. Na profundeza das almas agita-se um mundo de aspirações, que faz esforços por tomar forma e aparecer à vida. O sentimento e a razão, essas duas grandes forças imperecíveis como o Espírito humano, de que são atributos, forças hostis até hoje e que perturbavam a sociedade com os seus conflitos, semeando por toda parte a discórdia, a confusão e o ódio, tendem, finalmente, a se conciliarem. A religião deve perder seu caráter dogmático e sacerdotal para tornar-se científica; a ciência libertar-se-á dos baixios materialistas para esclarecer-se com um raio divino. Surgirá uma doutrina, idealista em suas tendências, positiva e experimental em seu método, apoiada sobre fatos inegáveis. Sistemas opostos na aparência, filosofias contraditórias e inimigas, o Espiritismo e o Naturalismo, entre outras, acharão, afinal, um terreno de reconciliação. Síntese poderosa, ela abraçará e ligará todas as concepções variadas do mundo e da vida, raios dispersos, faces variadas da Verdade.
Será a ressurreição, sob forma mais ampla e a todos acessível, dessa doutrina que o passado conheceu, será o aparecimento da religião natural que renascerá simples, sem cultos nem altares. Cada pai será sacerdote em sua família, ensinará e dará o exemplo. A religião passará para os atos, para o desejo ardente do bem; o holocausto será o sacrifício de nossas paixões, o aperfeiçoamento do Espírito humano. Tal é a doutrina superior, definitiva, universal, no seio da qual serão absorvidas, como os rios pelo oceano, todas as religiões passageiras, contraditórias, causas freqüentes de dissidência e dilaceração para a Humanidade.
 

leon denis      

quinta-feira, 3 de maio de 2012

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O QUE E O ESPIRITISMO

O que é espiritismo?




Existe uma confusão a respeito do que é Doutrina Espírita ou Espiritismo. Isto porque há pessoas que não sabem que as palavras espírita e espiritismo foram criadas em 1857 na França pelo codificador da doutrina espírita Allan Kardec (Hyppolite Leon Denizard Rivail). Somente deveriam utilizarem-se estes termos em locais ou grupos de pessoas que seguisem essa doutrina.
Assim, cultos ou religiões que de alguma forma têm em suas práticas a comunicação de Espíritos e a crença na reencarnação são confundidas com o Espiritismo.
Na verdade, embora mereçam todo o respeito, estas seitas são adeptas do espiritualismo ou esoterismo, e não do Espiritismo. Todos aqueles que acreditam na existência do Espírito são espiritualistas. Mas nem todos os espiritualistas são espíritas, praticantes do Espiritismo.
Para que uma casa religiosa seja espírita, ela deve seguir os ensinamentos contidos nas Obras Básicas da Doutrina Espírita ( Faça o download delas aqui ) e no Evangelho de Jesus. Geralmente, os locais espíritas recebem o nome de: Centro, Grupo, Casa, Sociedade, Instituição, Núcleo ou Lar Espírita. Deve ser legalmente constituído, de acordo com as leis vigentes no país em que está instalado. Mesmo ostentando este nome, quem os visita necessita estar atento para quais as atividades e as formas como as mesmas são praticadas por seus dirigentes e auxiliares
(veja o que um centro espírita faz).
Visando ajudar àqueles que não conhecem o Espiritismo, mostraremos abaixo o que se encontra e o que não deve ser encontrado em uma casa espírita verdadeira:
O que é encontrado em uma casa espírita:
Palestras: todo centro espírita tem o seu momento de esclarecimento doutrinário. As exposições geralmente são sobre a Codificação espírita e o Evangelho de Jesus, em uma ligação direta com nosso cotidiano. Não há nenhum ritual antes dos trabalhos, a não ser uma prece pedindo a proteção de Jesus e dos bons Espíritos (geralmente, a oração é feita em pensamento). Em algumas oportunidades, antes ou no final das palestras, alguns grupos fazem a apresentação de corais musicais, quase sempre formados por grupos de jovens. Porém, este tipo de procedimento não é aconselhável, sendo indicado que seja praticado em datas e horários diferentes dos trabalhos espirituais e de esclarecimento ao público, exatamente para se evitar confusões e mal-entendidos.
Trajes normais: os trabalhadores de uma casa espírita trajam-se normalmente, de forma simples. A discrição deve fazer parte dos que trabalham no local, pois ali estão para auxiliar as pessoas que buscam orientação para seus problemas materiais e espirituais.
Inexistência de rituais, amuletos e imagens: o verdadeiro centro espírita não pratica em suas atividades nenhum tipo de ritual. A Doutrina Espírita segue o que o Mestre Jesus ensinou: que Deus é Espírito, e deve ser adorado em espírito e verdade. Portanto, sem a necessidade de nada material para contatarmos com a espiritualidade.
Comunicação particular com os Espíritos: os grupos espíritas têm reuniões específicas e íntimas para que os trabalhadores da casa, aptos e preparados durante longos estudos para tal, possam comunicar-se com os Espíritos. E através deles, obter informações do mundo espiritual, orientações e mesmo ajudar no afastamento de perturbações espirituais que porventura estejam prejudicando alguém. Todo este cuidado baseia-se na orientação dos próprios Espíritos superiores (chamados de anjos na maioria das religões), responsáveis pela elaboração do Espiritismo, como também no alerta de João, o Evangelista, que em sua 1ª Epístola, capítulo IV, versículo 1, diz: "Amados, não creiais em todos os Espíritos, mas provai se os Espíritos são de Deus". Agindo assim, o centro espírita evita o máximo possível a influência de Espíritos zombeteiros e maldosos, que muitas vezes vêem neste contato com os encarnados a oportunidade de tecer comentários mentirosos e doutrinas esdrúxulas. A seriedade de reuniões fechadas os intimida, favorecendo a presença dos Espíritos esclarecidos. Há alguns tipos de trabalhos mediúnicos, principalmente de psicografia (escrita dos Espíritos através de médiuns), onde pessoas levam até lá o nome de entes desencarnados para tentarem a comunicação dos mesmos através da mediunidade, e ficam observando a manifestação. O médium Francisco Cândido Xavier, conhecido como Chico Xavier, da cidade mineira de Uberaba, é um destes exemplos. Porém, nestes casos, o Espírito não se comunica diretamente com seu parente. Apenas influencia o médium, que escreverá, de forma discreta e ordenada, a mensagem do além.

Desenvolvimento cauteloso da mediunidade: a Doutrina Espírita explica que todo ser vivo tem mediunidade, pois é através dela que os encarnados recebem influências boas e más do mundo espiritual, que servirão de ajuda ou aprendizado no decorrer de suas existências terrenas. São chamados de médiuns aqueles capazes de proporcionar a manifestação dos espíritos. O Espiritismo adverte que para poder ampliar esta ligação com o mundo espiritual, é necessário que o médium passe por uma série de preparativos. Anos de estudo, maturidade, modificação moral constante, vida regrada, abstendo-se dos vícios mais grosseiros, como o fumo e a bebida, são algumas das regras básicas para que o indivíduo possa vir a desenvolver sua mediunidade, e estão contidas em "O Livro dos Médiuns" . Os centros espíritas verdadeiros não aconselham a pessoa a trabalhar mediunicamente sem antes passar por este período e preparação . Muito menos diz que alguém "precisa" desenvolver a mediunidade. Ninguém é obrigado a nada, afirma a Doutrina. Todos têm seu livre-arbítrio, e mesmo que o ser tenha um canal mediúnico amplo, próprio para o desenvolvimento da mediunidade, e não quiser desenvolvê-lo, não há problema. Tudo o que é forçado é prejudicial ao homem.

Não há promessas de curas: o verdadeiro centro espírita não promete a cura para quem o procura. A Doutrina afirma que a cura de uma influência espiritual ou doença material depende de uma série de fatores, entre os quais a modificação moral do enfermo, sua necessidade, seus problemas relacionados com encarnações anteriores e acima de tudo, se há ou não a permissão de Deus para que haja a solução da dificuldade. Muitas vezes, o sofrimento é um período necessário para o ser refletir sobre sua existência, e o único que sabe quando é a hora disso terminar é o Criador.O que o centro espírita faz é um pronto-socorro aos necessitados de amparo e esclarecimento, é de todas as formas possíveis (orações, tratamentos espirituais, passes, orientações morais e materiais) tenta minimizar o sofrimento alheio, rogando a Jesus que se o Pai permitir, que interceda junto ao indivíduo.

Passes simples: o passe é um método utilizado dentro dos centros espíritas. Nada mais é do que a simples imposição das mãos de médiuns sobre a fronte de outras pessoas, transmitindo-lhes fluidos magnéticos e espirituais (energias positivas do próprio médium e de bons Espíritos), no intuito de fortalecer-lhes o corpo e a parte espiritual. Tem duração em média de 30 segundos a 01 minuto. Geralmente, é aplicado dentro de salas específicas, após a palestra, individual ou coletivamente, com o público sentado e o passista de pé. Apenas são feitas orações, em pensamento, pelos médiuns, rogando o amparo de Jesus àqueles que estão recebendo os fluidos. Os passistas não ficam incorporados pelos Espíritos, apenas recebem sua influência mental e fluídica.Importante: nunca há necessidade do passista tocar a pessoa que recebe o passe. Toques, apertos, carícias têm grandes possibilidades de serem mal-interpretados, gerando confusões, e por isso são dispensados no centro espírita.

Todo o serviço espiritual é gratuito: o verdadeiro centro espírita não cobra nenhuma orientação ou ajuda espiritual de seu público, nem condiciona o recebimento de curas ou salvação às doações. Dar de graça o que de graça receber, ensinou Jesus, em alusão aos conhecimentos espirituais. Não aceita dinheiro por serviços prestados mediunicamente. Seus dirigentes e trabalhadores têm profissões próprias, que lhes dão o sustento financeiro necessário para suas vidas. Quem sustenta materialmente a casa espírita são seus trabalhadores, através de doações mensais, destinadas ao pagamento de aluguéis, manutenção, divulgação doutrinária e aquisição de alimentos, roupas e demais objetos a serem distribuídos às famílias carentes ou instituições filantrópicas que sejam assistidas pelo grupo. Todo valor arrecadado será exposto em balanços mensais, para que tanto trabalhadores como frequentadores tenham acesso sobre onde é investido o dinheiro do centro espírita. Caso algum frequentador da casa queira doar algo ao núcleo, é preferível que a doação seja feita em gêneros alimentícios, roupas, materiais de construção e afins, que poderão ser destinados aos carentes ou mesmo utilizados na manutenção da casa. Se houver por algum motivo uma doação em dinheiro, o centro espírita deverá fornecer um recibo ao doador e inscrever esta doação no balanço mensal do grupo.
O que não é encontrado em casa espírita:

Explanações e orações ao som de músicas, batuques, atabaques: o Espiritismo não utiliza instrumentos musicais para exortar o público ou evocar Espíritos. Não há o uso de qualquer instrumento durante os trabalhos.
Trajes especiais: o Espiritismo não tem roupas especiais para os dias de trabalhos ou mesmo no dia-a-dia das seus adeptos. Enfeites, amuletos, colares, vestimentas com cores que significariam o bem (branca) ou o mal (negra, vermelha) não têm fundamento para o espírita.
Presença de rituais como: ajoelhar-se frente a algo ou alguém, beijar a mão ou louvar os responsáveis pela casa, benzer-se, sentar-se no chão ou ficar levantando e sentando durante os trabalhos, proferir determinadas palavras (mantras) para evocar os Espíritos. Nas sedes dos verdadeiros centros espíritas não são encontradas amuletos de sorte, figuras que afastam ou atraem maus Espíritos, incensos, velas e tudo o mais que seja material e que teoricamente serviria de ligação com o mundo espiritual. Animais para sacrifício: o local que possui este tipo de prática ou decoração não é espírita. O Espiritismo é contrário a qualquer tipo de sacrifício animal. Espíritos que pedem este tipo de atividade são Espíritos atrasados, ignorantes da Lei de Deus e muitas vezes maléficos, que podem prejudicar a vida de quem dá ouvidos aos seus baixos desejos.

Comunicação de Espíritos em público: a Doutrina Espírita é contrária a este tipo de manifestação, cercada geralmente de curiosidades e interesses materiais, ao invés do bom senso que deve permear toda comunicação espiritual. Há locais em que os médiuns recebem seus "guias" ou "Espíritos protetores", teoricamente responsáveis pelo funcionamento da casa, e orientam os consulentes sobre qualquer tipo de dúvida. Muitas vezes, as respostas dadas por este tipo de Espírito não têm base científica ou doutrinária alguma, seguindo apenas seu próprio conhecimento, que pode ser limitado. Em vários destes lugares em que há a manifestação pública, as entidades espirituais são servidas de fumo, bebida, comida, ingeridas pelo médium incorporado. Com isso, mostram a limitação destes Espíritos, ainda muito apegados aos vícios e prazeres materiais.

Desenvolvimento mediúnico forçado: se ao chegar em um ambiente espiritualista lhe afirmarem que sua mediunidade "precisa" ser desenvolvida, caso contrário você sofrerá as consequências materiais e espirituais; sua vida será um transtorno; que os Espíritos estão lhe chamando para o trabalho; que esta é a sua missão; com certeza este não é um local que segue a Doutrina Espírita. Há seitas e religiões afro-brasileiras que obrigam a pessoa a desenvolver-se mediunicamente e depois as ameaçam com terríveis problemas futuros se elas deixarem de "trabalhar". Isto gera angústia, medo e desespero nos envolvidos, que geralmente acabam vítimas de graves obsessões (influência maléfica persistente de um Espírito atrasado sobre outro ser). Cuidado!

Promessas de cura: qualquer lugar que prometa a cura de problemas espirituais ou materiais, sem levar em consideração os fatores já citados, não é um local espírita. Condicionar uma cura à frequência exclusiva naquele ambiente, ao pagamento de dinheiro ou bens materiais, ou mesmo à "força da casa" não tem base no Espiritismo e foge do bom senso que regula as leis de Deus. Estas, não podem ser modificadas de acordo com nossa vontade. Por isso, prometer algo que não depende apenas de nós mesmos beira a irresponsabilidade e pode levar a pessoa desesperada ao desequilíbrio total ou à descrença em Deus.
Passes com movimentos bruscos: locais em que os passes são aplicados com movimentos bruscos, utilizando objetos, baforadas de cigarro ou charuto, estalando-se os dedos, repetindo mantras e cânticos, tocando várias partes do corpo do receptor não são centros espíritas. Passistas que transmitem os passes incorporados por entidades, fazendo orientações ou conversando normalemente, não são médiuns espíritas.
Cobrança pela ajuda espiritual: todo local que cobra dinheiro, favores ou exige qualquer coisa ou favor material devido à ajuda espiritual prestada não é um centro espírita. A cobrança financeira é própria de pessoas que vivem da exploração da crença alheia, contrariando os ensinos de Jesus. Há seitas que pedem dinheiro aos seus assistidos afirmando que será usado para o feitio de trabalhos espirituais, como a compra de velas, comida, roupas e coisas do gênero. Isso não é Espiritismo. Espíritos que se prestam a fazer serviços espirituais em troca de coisas materiais são entidades atrasadas, que nada de bom podem trazer aos que os procuram. Não podemos comprar a paz de espírito e tranquilidade que buscamos, é isto que prega a Doutrina Espírita. Se não for esta a orientação do local, com certeza não é um ambiente espírita.


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O Futuro e o Nada
Autor:
Allan Kardec

Fonte:
O Céu e o Inferno1. – Nós vivemos, pensamos, agimos, eis o que é positivo; nós morremos, e isso não é menos certo. Deixando a Terra, para onde vamos? Em que nos tornaremos? Seremos melhores ou piores? Seremos ou não seremos? Ser ou não ser, tal é a alternativa; é para sempre ou para nunca; é tudo ou nada: ou viveremos eternamente, ou tudo se acabará sem retorno. Vale bem a pena pensar nisso.


Todo homem experimenta a necessidade de viver, de gozar, de amar, de ser feliz. Dizei àquele que sabe que vai morrer que ele viverá ainda, que sua hora será retardada, dizei-lhe, sobretudo, que será mais feliz do que nunca fora, e seu coração vai palpitar de alegria. Mas, de que serviriam essas aspirações de felicidade, se um sopro pode fazê-las desvanecerem-se?
Há alguma coisa mais desesperadora do que esse pensamento da destruição absoluta? Afeições santas, inteligência, progresso, saber laboriosamente adquirido, tudo será aniquilado, tudo estará perdido! Qual a necessidade do esforço para se tornar melhor, da repressão para conter suas paixões, fatigar-se para adornar seu Espírito, se disso não se deve recolher nenhum fruto, sobretudo, com esse pensamento de que amanhã talvez isso não nos servirá para nada? Se assim fosse, a sorte do homem seria cem vezes pior do que a do animal, porque o animal vive inteiramente no presente, na satisfação dos seus apetites materiais, sem aspiração quanto ao futuro. Uma secreta intuição diz que isso não é possível.


2. – Pela crença em o nada, o homem concentra fortemente todos os seus pensamentos sobre a vida presente; não poderia, com efeito, logicamente se preocupar com o futuro que ele não espera. Essa preocupação exclusiva do presente conduz, naturalmente, a pensar em si antes de tudo; é, pois, o mais poderoso estímulo ao egoísmo, e o incrédulo é coerente consigo mesmo quando chega a esta conclusão: gozemos enquanto aqui estamos, gozemos o mais possível, porque depois de nós tudo estará terminado; gozemos depressa, porque não sabemos quanto isso durará; e a esse outro, também muito grave para a sociedade: gozemos, apesar de tudo; cada um por si; a felicidade, neste mundo, é do mais esperto.
Se o respeito humano retém alguns, que freio podem ter aqueles que nada temem? Eles dizem que a lei humana não alcança senão os inábeis; por isso aplicam seu gênio nos meios de a contornarem. Se há uma doutrina malsã e anti-social, seguramente, é a do nihilismo porque rompe os verdadeiros laços da solidariedade e da fraternidade, fundamentos das relações sociais.


3. – Suponhamos que, por uma circunstância qualquer, todo um povo adquirisse a certeza de que, em oito dias, em um mês, em um ano se se quer, ele será aniquilado, e nenhum indivíduo sobreviverá, que não restará marca nenhuma de si mesmo depois da morte; que fará durante este tempo? Trabalhará pelo seu melhoramento, pela sua instrução? Se entregará ao trabalho para viver? Respeitará os direitos,  os  bens,  a vida  dos  seus  semelhantes?  Submeter-se-á às leis, a uma autoridade, qualquer que seja, mesmo a mais legítima: a autoridade paterna? Terá para si um dever qualquer? Seguramente que não. Pois bem! O que não se alcança em massa, a doutrina do nihilismo o realiza, cada dia, isoladamente. Se as conseqüências disso não são tão desastrosas tanto poderiam ser, é primeiro porque, entre a maioria dos incrédulos, há mais de fanfarrice do que de verdadeira incredulidade, mais dúvida do que convicção, e porque têm mais medo do nada do que procuram aparentar: o título de espírito forte lisonjeia-lhes o amor-próprio; em segundo lugar, porque os incrédulos absolutos são uma ínfima minoria; sentem, malgrado eles, ascendência da opinião contrária e são mantidos por uma força material; mas, se a incredulidade absoluta se tornar um dia a opinião da maioria, a sociedade estará em dissolução. É ao que tende a propagação da doutrina do nihilismo. (1)


Quaisquer que sejam as conseqüências, se o nihilismo fosse uma verdade, seria preciso aceitá-lo, e não seriam nem sistemas contrários, nem o pensamento do mal que dele pudesse resultar, que poderiam fazer com que não o fosse. Ora, não se pode dissimular que o cepticismo, a dúvida, a indiferença, cada dia, ganham terreno, malgrado os esforços da religião; isto é positivo. Se a religião é impotente contra a incredulidade, é que lhe falta alguma coisa para combatê-la, de tal sorte que, se permanecer na imobilidade, em um tempo dado ela estará infalivelmente ultrapassada. O que lhe falta, neste século de positivismo, quando se quer compreender antes de crer, é a sanção de suas doutrinas pelos fatos positivos; é também a concordância de certas doutrinas com os dados positivos da ciência. Se ela diz branco e os fatos dizem negro, é preciso optar entre a evidência e a fé cega.


4. – É nesse estado de coisas que o Espiritismo vem opor um dique à invasão da incredulidade, não somente pelo raciocínio, não somente pela perspectiva de perigo que ela ocasiona, mas pelos fatos materiais, fazendo tocar o dedo e olhar a alma e a vida futura.


Cada um é livre, sem dúvida, em sua crença, em crer em alguma coisa ou de não crer em nada; mas aqueles que procuram fazer prevalecer, no espírito das massas, da juventude sobretudo, a negação do futuro, apoiando-se na autoridade do seu saber ou no ascendente da sua posição, semeiam na sociedade os germes da perturbação e da dissolução, e incorrem em uma grande responsabilidade.


5. – Há uma outra doutrina que nega ser materialista, porque admite a existência de um princípio inteligente fora da matéria, e é a da absorção no Todo Universal. Segundo esta doutrina, cada indíviduo assimila, ao nascer, uma parcela desse princípio, que constitui sua alma e lhe dá a vida, a inteligência e o sentimento. Na morte, essa alma retorna ao foco comum e se perde no infinito como uma gota d’água no Oceano.


Essa doutrina, sem dúvida, é um passo adiante sobre o materialismo puro, uma vez que admite alguma coisa, ao passo que a outra não admite nada, mas suas conseqüências são exatamente as mesmas. Que o homem seja mergulhado em o nada ou no reservatório comum, é a mesma coisa para ele; se, no primeiro caso, ele é aniquilado, no segundo perde sua individualidade; é, pois, como se ele não existisse mais; as relações sociais não estarão menos inteiramente rompidas. O essencial, para ele, é a conservação do seu eu; sem isso, que lhe importa ser ou não ser! O futuro, para ele, é sempre nulo, e a vida presente, a única coisa que lhe interessa e o preocupa. Do ponto de vista das suas conseqüências morais, essa doutrina é tão malsã, tão desesperadora, tão excitante do egoísmo quanto o materialismo propriamente dito.


6. – Por outro lado pode-se aí fazer a objeção seguinte: todas as gotas d´água tiradas do Oceano se assemelham e têm propriedades idênticas, como as partes de um mesmo todo; por que as almas, se são tiradas do grande oceano da inteligência universal se assemelham tão pouco? Por que o gênio ao lado da estupidez? As mais sublimes virtudes ao lado dos vícios os mais ignóbeis? A bondade, a doçura, a mansidão ao lado da maldade, da crueldade, da barbárie? Como as partes de um todo homogêneo podem ser tão diferentes umas das outras? Dir-se-á que é a educação que as modifica? Mas, então, de onde vêm as qualidades inatas, as inteligências precoces, os instintos bons e maus independentes de qualquer educação, e, freqüentemente, tão pouco em harmonia com os meios onde eles se desenvolvem?


A educação, sem nenhuma dúvida, modifica as qualidades intelectuais e morais da alma; mas aqui se apresenta uma outra dificuldade. Quem dá à alma a educação para fazê-la progredir? Outras almas que, pela sua origem comum, não devem ser mais avançadas. Por outro lado, a alma, reentrando no Todo Universal de onde havia saído, depois de ter progredido durante a vida, aí leva um elemento mais perfeito; de onde se segue que tudo deve, com o tempo, se encontrar profundamente modificado e melhorado. Como ocorre que daí saiam, incessantemente, almas ignorantes e perversas?


7. – Nessa doutrina, a fonte universal de inteligência que fornece as almas humanas é independente da Divindade; não é precisamente o panteísmo. O panteísmo propriamente dito dela difere em considerando o princípio universal de vida e de inteligência como constituindo a Divindade. Deus é, ao mesmo tempo, Espírito e matéria; todos os seres, todos os corpos da Natureza compõem a Divindade, da qual são as moléculas e os elementos constitutivos; Deus é o conjunto de todas as inteligências reunidas; cada indíviduo, sendo uma parte do todo, ele mesmo é Deus; nenhum ser superior e independente comanda o conjunto; o Universo é uma imensa república sem chefe, ou antes, onde cada um é chefe com poder absoluto.


8. – A esse sistema podem opor-se numerosas objeções, cujas principais são estas: a Divindade não podendo ser concebida sem o infinito das perfeições, pergunta-se: como um todo perfeito pode ser formado de partes tão imperfeitas e tendo necessidade de progredir? Cada parte estando sujeita à lei do progresso, disso resulta que Deus, ele mesmo, deve progredir; se progredir sem cessar deve ter sido, na origem dos tempos, muito imperfeito. Como um ser imperfeito, formado de vontades e de idéias tão divergentes, pôde conceber as leis tão harmoniosas, tão admiráveis de unidade, de sabedoria e de previdência que regem o Universo? Se todas as almas são porções da Divindade, todas concorreram para as leis da Natureza; como ocorre que elas murmurem, sem cessar, contra essas leis, se são obra sua? Uma teoria não pode ser aceita como verdadeira senão com a condição de satisfazer a razão e de dar conta de todos os fatos que ela abarca; se um só fato vier dar-lhe um desmentido, é que ela não está na verdade absoluta.


9. – Do ponto de vista moral, as conseqüências são também bastante ilógicas. É primeiro, para as almas, como no sistema precedente, a absorção num todo e a perda da individualidade. Se se admite, segundo a opinião de alguns panteístas, que elas conservam sua individualidade, Deus não tem mais vontade única; é um composto de miríades de vontades divergentes. Além disso, cada alma sendo parte integrante da Divindade, nenhuma é dominada por uma força superior; não incorre, por conseqüência, em nenhuma responsabilidade por seus atos bons ou maus; não tem nenhum interesse em fazer o bem e pode fazer o mal impunemente, uma vez que é senhora soberana.


10. – Além de que esses sistemas não satisfazem nem a razão nem a aspiração do homem, se tropeçam, como se vê, com dificuldades insuperáveis, porque são impotentes para resolverem todas as questões de fato que eles suscitam. O homem tem, pois, três alternativas: o nada, a absorção, ou a individualidade da alma antes e depois da morte. É para essa última crença que nos conduz, invencivelmente, a lógica; é aquela também que foi o fundo de todas as religiões desde que o mundo existe.


Se a lógica nos conduz à individualidade da alma, ela nos leva também a esta outra conseqüência: que a sorte de cada alma deve depender de suas qualidades pessoais, porque seria irracional admitir que a alma atrasada do selvagem e do homem perverso estivessem no mesmo nível que a do sábio e do homem de bem. Segundo a justiça, as almas devem ter a responsabilidade de seus atos; mas, para que sejam responsáveis, é preciso que estejam livres para escolher entre o bem e o mal; sem o livre arbítrio, há fatalidade, e com a fatalidade não poderia haver responsabilidade.


11. – Todas as religiões têm igualmente admitido o princípio da sorte feliz ou infeliz das almas depois da morte, ou, dito de outro modo, das penas e dos gozos futuros que se resumem na doutrina do céu e do inferno, que se encontra em toda parte. Mas, no que elas diferem essencialmente, é sobre a natureza dessas penas e desses gozos, e sobretudo sobre as condições que possam merecer umas e outros. Daí os pontos de fé contraditórios que deram nascimento aos diferentes cultos, e os deveres particulares impostos, por estes, para honrar a Deus, e por esse meio ganhar o céu e evitar o inferno.


12. – Todas as religiões deveram, em sua origem, estar em relação com o grau de adiantamento moral e  intelectual dos homens; estes, muito materiais ainda para compreenderem o mérito das coisas puramente espirituais, fizeram consistir a maioria dos deveres religiosos no cumprimento de formas exteriores. Durante um tempo, essas formas bastaram à sua razão; mais tarde, fazendo-se luz em seu Espírito, sentem o vazio que as formas deixam atrás de si, e se a religião não os satisfaz mais, abandonam a religião e se tornam filósofos.


13. – Se    a   religião,   apropriada   a  princípio aos conhecimento limitados dos homens, houvesse sempre seguido o movimento progressivo do espírito humano, não haveria incrédulos, porque está na natureza do homem ter necessidade de crer, e ele crerá se se der um alimento espiritual em  harmonia   com   as   suas   necessidades intelectuais. Ele quer saber de onde veio e para onde vai; se se lhe mostra um objetivo que não responde nem às suas aspirações nem à idéia que ele faz de Deus, nem aos dados positivos que lhe fornece a ciência; além disso, se se lhe impõem atingir condições que sua razão não lhe demonstre a utilidade, ele repele o todo; o materialismo e o panteísmo lhe parecem ainda mais racionais, porque neles se discute e raciocina; raciocina-se falso, é verdade, mas ele gosta ainda mais de raciocinar falso do que não raciocinar de todo.


Mas, que se lhe apresente um futuro em condições lógicas, dignas, em todo ponto, da grandeza, da justiça e da infinita bondade de Deus, e ele abandonará o materialismo e o panteísmo, dos quais sente o vazio em seu foro íntimo, e que não havia aceito senão por falta de coisa melhor. O Espiritismo dá mais, porque acolhe, com solicitude, todos aqueles atormentados pela incerteza dolorosa da dúvida e que não encontram, nem nas crenças nem nas filosofias vulgares, o que procuram; têm para si a lógica do raciocínio e a razão dos fatos e é por isso que o combatem inutilmente.


14. – O homem tem, instintivamente, a crença no futuro; mas, não tendo até hoje nenhuma base certa para defini-lo, sua imaginação produziu sistemas que conduziram à diversidade nas crenças. A Doutrina Espírita sobre o futuro, não sendo uma obra de imaginação mais ou menos engenhosamente concebida, mas o resultado da observação de fatos materiais que se desenrolam hoje sob os nossos olhos, ela unirá, como já faz agora, as opiniões divergentes ou superficiais, e conduzirá, pouco a pouco, e pela força das coisas, à unidade na crença sobre esse ponto, crença que não estará mais baseada sobre uma hipótese, mas sobre uma certeza. A unificação, feita no que concerne à sorte futura das almas, será o primeiro ponto de aproximação entre os diferentes cultos, um passo imenso para a tolerância religiosa primeiro, e, mais tarde, a fusão.


(1) Um jovem de 18 anos estava atacado por uma doença do coração, declarada incurável. A ciência havia dito: ele pode morrer em oito dias, como em dois anos, mas não passará disso. O jovem o sabia; logo deixa todo o estudo e se entrega aos excessos de todos os gêneros. Quando lhe ponderaram o quanto uma vida de desordem era perigosa na sua posição, ele respondeu: Que me importa, se não tenho senão dois anos para viver! De que me serviria fatigar meu espírito? Eu gozo o que me resta e quero me divertir até o fim. Eis a conseqüência lógica do nihilismo.

Se esse jovem fosse espírita, ele teria dito: a morte não destruirá senão o meu corpo, que deixarei como uma veste usada, mas meu Espírito viverá sempre. Serei, em minha vida futura, o que fiz de mim mesmo nesta; o que pude adquirir em qualidades morais e intelectuais não estará perdido, porque isso será igualmente aquisição para o meu adiantamento; toda imperfeição de que me despojar é um passo a mais para a felicidade; minha felicidade ou minha infelicidade futuras dependem da utilidade, ou da inutilidade, da minha existência presente. É, pois, do meu interesse aproveitar o pouco tempo que me resta, e evitar tudo o que poderia diminuir as minhas forças.

Qual dessas duas doutrinas é preferível?

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